Casos recentes expõem cenário grave e reforçam alerta de especialistas.
“A luta pela dignidade das mulheres e igualdade de gênero passa pela criação de uma cultura jurídica emancipatória e de reconhecimento de direitos de todas as mulheres e meninas.” A avaliação é da advogada Luciane Mezarobba, que atua exclusivamente no atendimento a mulheres.
Dois episódios recentes em São Paulo chamaram atenção para a escalada da violência. No sábado (29), uma mulher de 31 anos teve as pernas mutiladas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro. Na segunda-feira (1º), um homem abriu fogo contra a ex-companheira na pastelaria onde ela trabalhava. A Polícia Civil classificou o primeiro caso como tentativa de feminicídio, destacando a extrema crueldade envolvida.
Para Mezarobba, o enfrentamento deve atuar em duas frentes: políticas públicas e ambiente privado. Ela defende iniciativas como ampliação de creches e escolas em tempo integral e a adoção, pelo Judiciário, do Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, que orienta decisões considerando desigualdades estruturais.
A advogada afirma que o problema não é a falta de leis, o feminicídio, por exemplo, prevê pena de até 40 anos, mas a impunidade e a naturalização da violência. “É preciso que o Estado combata redes de ódio e misoginia que fortalecem agressores”, disse. No âmbito familiar, ela aponta a importância de uma educação que não reforce estereótipos de gênero.
A psicóloga e pesquisadora da UnB, Maisa Guimarães, lembra que a desigualdade entre homens e mulheres tem raízes históricas que ainda influenciam comportamentos. Ela destaca que a autonomia feminina é recente no Brasil e que a violência está ligada à resistência de muitos homens em aceitar a independência das mulheres.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, de janeiro a outubro de 2025 foram registrados 53 feminicídios na capital, o maior índice da série histórica iniciada em 2018. Em todo o estado, 207 mulheres foram assassinadas no período. Apenas em outubro, foram 22 vítimas e mais de 5,8 mil casos de lesão corporal dolosa.
O feminicídio é definido como o homicídio de uma mulher motivado por violência de gênero, geralmente como desfecho de um histórico de agressões. A pesquisadora destaca que a aplicação de protocolos de investigação tem reduzido subnotificações, mas o aumento dos números reflete o agravamento das violências. “Não é só não aceitar o fim da relação. É não aceitar que a mulher decida sobre a própria vida”, afirmou Maisa.