Especialistas alertam que substâncias presentes no vape podem provocar danos celulares e genéticos, aumentando o risco de tumores ao longo dos anos.
O crescimento do consumo de cigarros eletrônicos entre adolescentes e jovens adultos tem provocado preocupação entre especialistas por causa dos possíveis impactos na saúde bucal. Pesquisas experimentais apontam que o aerossol liberado pelos dispositivos pode causar alterações nas células e no material genético da mucosa da boca, criando condições que favorecem o surgimento de tumores malignos após longos períodos de exposição.
A cirurgiã de cabeça e pescoço Ana Gabriela Neis, do Hospital São Marcelino Champagnat, explica que os efeitos mais graves desse hábito ainda podem demorar para aparecer nos consultórios. Segundo a médica, como o vape é utilizado principalmente por pessoas mais jovens e o câncer costuma levar anos para se desenvolver, o aumento de casos relacionados ao dispositivo pode ser percebido apenas no futuro. Por isso, a prevenção é considerada fundamental.
O alerta ganha ainda mais importância diante do avanço do câncer de boca no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Câncer indicam aproximadamente 15,1 mil novos casos por ano no triênio de 2023 a 2025. Entre os fatores de risco mais conhecidos estão o tabagismo, o consumo frequente de bebidas alcoólicas, a exposição excessiva dos lábios ao sol e a infecção pelo papilomavírus humano, o HPV.
Além da quantidade de consumidores, o perfil dos usuários preocupa os profissionais de saúde. Informações do Vigitel 2024, divulgadas pelo Inca, mostram que 2,6% dos adultos brasileiros utilizam cigarros eletrônicos, o maior percentual desde o início da série histórica, em 2019. Entre pessoas de 18 a 24 anos, 10,1% fazem uso atual do vape e 24,8% afirmam já ter experimentado o dispositivo. Entre adolescentes, 76,3% continuam consumindo após o primeiro contato.
Embora a venda, a importação e a propaganda desses produtos estejam proibidas no Brasil desde 2009, os dispositivos continuam sendo encontrados em mercados informais e divulgados nas redes sociais. A proibição foi mantida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2024, após uma nova avaliação das evidências científicas. Mesmo assim, sabores adocicados, embalagens coloridas e a ausência do cheiro típico do tabaco ajudam a fortalecer a falsa ideia de que o vape oferece menos riscos.
O contato frequente do aerossol com a mucosa da boca pode provocar inflamações, aumentar o estresse oxidativo, enfraquecer as defesas locais do organismo e causar danos celulares. Uma revisão de 22 estudos, publicada em 2023 na revista Drug Testing and Analysis, reuniu evidências de alterações no DNA das células da boca, além da presença de substâncias potencialmente cancerígenas na saliva de usuários de cigarros eletrônicos.
A quantidade de nicotina absorvida também pode ser maior do que muitos consumidores imaginam. Um estudo do Instituto do Coração, da Universidade de São Paulo, publicado em 2025, analisou a saliva de 417 usuários exclusivos de vape. Em parte dos participantes, foram identificados níveis de nicotina semelhantes aos encontrados em pessoas que fumam cerca de 20 cigarros convencionais por dia, demonstrando o elevado potencial de dependência dos dispositivos.
Além da nicotina, o aquecimento de componentes como propilenoglicol, glicerina e aromatizantes pode produzir compostos tóxicos e liberar metais pesados, incluindo níquel, chumbo e cromo. Feridas na boca que não cicatrizam por mais de duas semanas, dificuldade persistente para engolir, rouquidão prolongada, sangramentos sem explicação e caroços no pescoço devem ser investigados. Segundo a especialista, a identificação precoce de lesões suspeitas aumenta as possibilidades de cura e permite tratamentos menos agressivos.