Dados do IBGE apontam retração do setor em agosto, enquanto guias relatam cancelamentos e adiamentos de atividades devido à poluição do ar.
O turismo no Amazonas registrou queda de 15% em agosto de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O recuo ocorreu antes do agravamento da fumaça provocada pelas queimadas no estado, que se intensificou em outubro. Agora, profissionais do setor relatam redução na procura por passeios, mudanças na programação dos visitantes e preocupação com os impactos da poluição sobre a atividade turística.
De acordo com o vice-presidente da Cooperativa de Guias e Agentes de Turismo do Estado do Amazonas (Coopguiaturam), Jairo Félix, a fumaça tem surpreendido visitantes que chegam à região e provocado alterações nos roteiros. Alguns turistas, principalmente idosos e pessoas mais sensíveis à poluição, preferem adiar os passeios até que a qualidade do ar apresente melhora.
"Alguns passageiros que costumam passar mal acabam cancelando e não indo no passeio. Pessoas idosas e pessoas que são receosas com a questão da poluição optam por adiar um ou dois dias", relatou ao g1.
Apesar das dificuldades, Jairo afirma que as atividades turísticas continuam sendo realizadas e que os cancelamentos são pontuais. Segundo ele, os profissionais procuram orientar os visitantes sobre as condições ambientais e apresentar alternativas de programação. O movimento também varia conforme a temporada, com maior procura entre dezembro e fevereiro e durante o período de pesca esportiva.
O guia de turismo e empresário Mario Sergio de Jesus, que trabalha há oito anos com ecoturismo e turismo de experiência, também percebeu uma diminuição no fluxo de visitantes. Ele atua em destinos como Manaus, Presidente Figueiredo e Iranduba e afirma que a fumaça tem influenciado a decisão dos turistas de realizar atividades ao ar livre.
"A gente continua. A única coisa que acontece é a diminuição do fluxo de turista por conta do número das pessoas chegarem até aqui e se deparar com o Amazonas, que é considerado o melhor do mundo, tendo um dos piores do mundo [em qualidade do ar]", afirmou.
Segundo o empresário, a intensidade da fumaça varia entre os destinos turísticos. Cachoeiras, rios e áreas de floresta continuam entre as opções procuradas pelos visitantes, dependendo das condições ambientais. Entretanto, mesmo regiões com atividades diferentes, como Novo Airão, sentem os reflexos das queimadas.
"Em Novo Airão a gente tem um turismo diferente, imersivo, cultural. As pessoas querem conhecer as praias, os igapós. Mas teve uma queda porque a queimada afeta independente da região", destacou.
A crise ambiental se agravou nos primeiros dias de outubro, quando Manaus enfrentou sucessivos episódios de fumaça intensa. A capital chegou a registrar uma das piores condições de qualidade do ar do Brasil, segundo a plataforma internacional IQAir. O cenário provocou suspensão de aulas, cancelamento de atividades ao ar livre e aumento da procura por atendimentos médicos relacionados à exposição à poluição.
Entre 1º de setembro e 14 de outubro, o Amazonas contabilizou 5.365 focos de incêndio, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O número representa um aumento de 195% em comparação com o mesmo período de 2025. Diante da situação, o governo estadual decretou emergência em 36 dos 62 municípios amazonenses, medida reconhecida pelo governo federal.
Para os profissionais do turismo, o desafio agora é manter a atividade econômica diante das condições ambientais. A divulgação de roteiros alternativos e o acompanhamento da qualidade do ar são algumas das estratégias adotadas para reduzir os impactos sobre os visitantes e os empreendimentos locais.
Embora os dados do IBGE indiquem retração em agosto, ainda não é possível atribuir essa queda à fumaça mais intensa de outubro. Os relatos dos guias, porém, mostram que a crise ambiental já interfere na experiência dos turistas e pode comprometer o movimento do setor nos próximos meses.