Empresas alegam que insumos do Brasil são essenciais para cadeias produtivas americanas e alertam para impacto no consumidor
Grandes empresas americanas, como Tesla, Nestlé, Coca-Cola e eBay, enviaram manifestações ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pedindo que produtos importados do Brasil fiquem fora da aplicação de tarifas adicionais. As cartas foram encaminhadas no dia 1º de julho, no âmbito da investigação da Seção 301, e alertam para possíveis impactos nas cadeias de suprimentos, na competitividade das empresas e no custo final para os consumidores norte-americanos.
As audiências públicas sobre o chamado tarifaço proposto pelo governo dos Estados Unidos contra produtos brasileiros começaram nesta segunda-feira (6). O USTR, órgão responsável pela formulação da política comercial americana, conduz investigações sobre práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA e pode recomendar medidas como a imposição de novas tarifas.
Além da tarifa de 12,5%, o órgão avalia a criação de outra taxa de 25% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de que o governo do Brasil adotaria práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os norte-americanos. Para as empresas, no entanto, a adoção das barreiras pode trazer efeitos negativos imediatos para a própria economia dos Estados Unidos.
As companhias argumentam que há escassez crônica de determinados insumos no mercado americano, o que torna o Brasil indispensável para diferentes setores. Um dos exemplos citados é a queda histórica na produção de laranja na Flórida, cenário que aumenta a dependência do suco de laranja brasileiro para abastecer o mercado dos Estados Unidos.
A Tesla afirmou que a aplicação rápida de tarifas, sem tempo para adaptação do mercado interno, pode prejudicar trabalhadores e consumidores americanos. A empresa defende que mudanças desse tipo precisam considerar a capacidade real da cadeia produtiva dos Estados Unidos de substituir os insumos importados.
A Nestlé destacou que o café em grão não pode ser cultivado em escala comercial no território continental dos Estados Unidos. A empresa também apontou que o Brasil é o principal exportador global de colágeno bovino, insumo importante para produtos de saúde e bem-estar, e que a cadeia americana não consegue atender sozinha à demanda interna.
A Coca-Cola solicitou que o governo americano mantenha a isenção já proposta para o suco de laranja de origem brasileira. A fabricante de bebidas também pediu que o limão e seus derivados sejam incluídos na lista de produtos livres de tarifas ou, ao menos, que seja concedido um período de transição antes de qualquer mudança.
O eBay, por sua vez, argumentou que as tarifas foram pensadas como sinal de preço para a produção industrial e agrícola do Brasil, mas não deveriam atingir produtos usados. Segundo a plataforma, esses itens já completaram seu ciclo de vida comercial, com o fabricante original já remunerado, e a cobrança penalizaria revendedores e consumidores de baixa renda que buscam economizar.
A mobilização das empresas ocorre em meio a um cenário de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Documentos enviados pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apontam que o Itamaraty avalia riscos relacionados à postura do governo de Donald Trump após a classificação unilateral do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. Apesar do contexto político, as corporações americanas sustentam que punir comercialmente insumos brasileiros pode gerar prejuízos internos aos próprios Estados Unidos.