Conflitos internacionais e políticas anti-imigração ampliam incertezas às vésperas do Mundial.
A relação entre futebol e política volta a ganhar protagonismo a quatro meses da Copa do Mundo de 2026, marcada para ser disputada nos Estados Unidos, Canadá e México. Em meio à aproximação do torneio, temas como guerras, políticas anti-imigração e até discussões sobre boicotes passaram a ocupar o centro do debate internacional, elevando o nível de alerta em torno do evento.
As tensões, no entanto, não são recentes. Um dos principais marcos dessa aproximação ocorreu com a decisão conjunta da Fifa e da Uefa de aplicar sanções à Federação de Futebol da Rússia após a invasão da Ucrânia. A punição proibiu o país de disputar as Eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar e, consequentemente, o próprio Mundial, medida que permanece válida.
Naquele momento, a Rússia disputaria a repescagem europeia contra a Polônia, enquanto República Tcheca e Suécia se enfrentariam na outra chave. As três seleções se recusaram a jogar contra os russos sob qualquer circunstância, mesmo com a proposta da Fifa de partidas em campo neutro e sem símbolos nacionais, como bandeira e hino.
Um ciclo de Copa depois, as questões políticas voltaram a pressionar as entidades esportivas. Em 5 de janeiro, os Estados Unidos realizaram uma operação militar na Venezuela, resultando na captura de Nicolás Maduro. Segundo John Daniel “Razin” Caine, general e chefe do Estado-Maior Conjunto, a ação ocorreu sob ordens do então presidente Donald Trump e envolveu 150 aeronaves.
Embora a operação não tenha se configurado como um conflito armado de grandes proporções, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, o episódio reforçou o temor de novas ações militares dos Estados Unidos em outras regiões. Nas semanas seguintes, Trump também fez declarações sobre a possibilidade de anexação da Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca.
Políticas migratórias e risco de boicotes entram no debate
Além dos conflitos geopolíticos, as políticas anti-imigração adotadas pelos Estados Unidos passaram a gerar preocupação direta para a realização da Copa. Uma das principais promessas de campanha de Trump foi o endurecimento das regras de entrada no país, com deportações em massa e restrições severas a estrangeiros, medidas que começaram a ser implementadas ainda no início de seu mandato.
Em janeiro de 2025, um decreto proibiu a entrada de cidadãos de 12 países e impôs restrições a estrangeiros de outros sete. Já após a virada do ano, o Departamento de Estado anunciou o congelamento da emissão de vistos de imigrantes de 75 países, incluindo o Brasil e outras 15 nações classificadas para o Mundial, como Uruguai, Camarões, Colômbia, Marrocos, Senegal e Irã.
Diante desse cenário, a possibilidade de boicotes passou a ser discutida. Dirigentes e políticos de países europeus criticaram publicamente as ações do governo norte-americano, embora algumas federações tenham descartado oficialmente a ausência no torneio. Ex-dirigentes da Fifa e parlamentares também se manifestaram, apontando o risco de o Mundial ser usado como ferramenta de propaganda política.
A situação se torna ainda mais delicada pelo fato de os Estados Unidos serem sede do evento. Ao todo, 11 cidades norte-americanas receberão partidas da Copa, além de três no México e duas no Canadá. Qualquer sanção ou boicote teria impacto direto na organização do torneio, ampliando as incertezas sobre um dos maiores eventos esportivos do planeta.