Medida afeta 36% das exportações do Brasil e pode cortar empregos.
Entrou em vigor na madrugada desta quarta-feira (6) a tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A sobretaxa passou a valer à 1h01 (horário de Brasília) e atinge quase 36% das exportações do Brasil, impactando itens como café, carnes, frutas, pescados, calçados, móveis, vestuário, couro e máquinas agrícolas.
A medida deve atingir diretamente cerca de 11 mil empresas exportadoras brasileiras de médio porte. Segundo estimativa da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), a medida pode resultar no corte de até 146 mil empregos no Brasil nos próximos dois anos.
Entre as justificativas para o aumento tarifário, o presidente dos EUA, Donald Trump, citou o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, classificando-o como “perseguição, censura e uma caça às bruxas”.
Apesar do impacto significativo, cerca de 700 produtos da lista inicial de sanções anunciada por Trump em 9 de julho foram poupados da tarifa, entre eles suco de laranja, aviões da Embraer, petróleo, veículos e peças, itens que juntos representam mais de 46% das exportações brasileiras aos Estados Unidos.
Diante da nova barreira comercial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não pretende tratar diretamente do tema com Trump:
"Eu não vou ligar para o Trump para comercializar, porque ele não quer falar. Mas eu vou ligar para o Trump para convidá-lo para vir para a COP, porque eu quero saber o que ele pensa da questão climática", declarou o presidente.
Nesta quarta-feira, uma comitiva da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos será recebida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que lidera o diálogo com os setores impactados. Gilberto Perry, secretário-executivo da entidade, destacou os desafios enfrentados pelos produtores:
"E o produto, né? Claro, vocês estão atentos, especialmente na fruticultura, né? Mas o que vai fazer? Vai deixar a fruta apodrecer no pé? [...] Utilizar o recurso das compras públicas, a estratégia das compras públicas, para tentar mitigar seus efeitos", sugeriu.
Até o momento, o governo federal ainda não anunciou medidas concretas de compensação para os setores afetados. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, indicou que um plano de contingência está em avaliação:
"O plano de contingência está acontecendo, as equipes estão trabalhando [...] Em cada caso, em cada setor, vai ter um determinado tipo de benefício, a depender do quanto, como ele foi atingido", afirmou.
Algumas empresas nos estados de Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais conseguiram antecipar embarques antes do início da vigência da tarifa. Na terça-feira (5), um cargueiro partiu do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, com 51 toneladas de mercadorias.
O Rio Grande do Norte está entre os estados mais impactados, especialmente nos setores de sal marinho e pescado. Os Estados Unidos compram 47% das exportações potiguares, e o estado é responsável por 98% da produção nacional de sal marinho.
Airton Torres, presidente do Sindicato da Indústria de Extração de Sal do estado, disse que a nova tarifa inviabiliza as exportações:
"Isso significa dizer que nós não temos mais condições de mandar o nosso sal para os Estados Unidos. Nós estamos falando aí da ordem de 550 mil toneladas de sal por ano", explicou.
Já o presidente do Sindicato da Indústria de Pesca, Arimar França Filho, alertou para os efeitos no setor de atum:
"Só no setor da pesca de atum industrial, mais de 1.500 empregos serão perdidos, fora todo um contexto que vem se desenvolvendo por empresas que têm entre 30, 40 e 50 anos", afirmou.