Evento no Dia Mundial da Água une espiritualidade, denúncia e mobilização no Amazonas.
Com o tema “Água, fonte de vida e bem comum: nossos rios não estão à venda!” e o lema “Que a justiça corra como um rio e a vida floresça”, a programação tem início às 8h, no Porto da Ceasa, zona sul da capital. De lá, os participantes seguem em barqueata até o Encontro das Águas, onde ocorre a confluência dos rios Negro e Solimões, um dos principais cartões-postais da região.
Durante o percurso, estão previstas duas místicas, uma no ponto de partida e outra no destino, além de falas de representantes das entidades envolvidas e performances em defesa da água como bem público. A programação também inclui momentos de espiritualidade e reflexão coletiva, reforçando o caráter simbólico e político do evento, que se encerra por volta das 12h, com retorno ao ponto inicial.
A Romaria das Águas busca sensibilizar a sociedade para a importância dos rios na manutenção da vida na Amazônia, além de cobrar das autoridades medidas que garantam o acesso à água de qualidade e a sustentabilidade dos recursos hídricos. A mobilização reúne movimentos sociais, ambientais, povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas em torno de uma pauta comum.
Neste ano, o evento também ganha caráter de denúncia contra iniciativas que ameaçam os rios da região. O tema alerta para os riscos da privatização das águas, após a recente revogação do Decreto nº 12.600/2025, que previa a inclusão de trechos dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, permitindo sua exploração por grandes grupos econômicos.
Para o padre e pesquisador Sandoval Rocha, membro da coordenação do Fórum das Águas do Amazonas, a Romaria ecoa a resistência das populações afetadas por atividades econômicas consideradas predatórias. Segundo ele, empreendimentos minerários, industriais, agrícolas e petrolíferos têm provocado impactos severos sobre os rios, o solo e a biodiversidade, colocando comunidades inteiras em situação de vulnerabilidade.
A presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA), professora Ana Lúcia Silva Gomes, destaca que a iniciativa representa um gesto concreto de união em defesa dos recursos naturais. Ela ressalta que a dinâmica das águas, marcada por ciclos de cheia, vazante e seca, influencia diretamente a vida dos amazônidas, tanto nas comunidades ribeirinhas quanto nas áreas urbanas.
Apesar de concentrar uma das maiores reservas de água doce do planeta, a Amazônia enfrenta desafios relacionados ao saneamento básico e ao acesso à água potável. Dados do Ranking do Saneamento 2025 indicam que nove das 20 cidades com piores índices no país estão na Amazônia Legal, incluindo Manaus. Além disso, eventos extremos, como a seca histórica de 2024, e o avanço do desmatamento têm alterado o regime das chuvas e impactado o equilíbrio ambiental da região.