Meio Ambiente

Relatório aponta desigualdade global na transição energética, diz Oxfam Brasil

Estudo denuncia concentração de investimentos no Norte e riscos para comunidades tradicionais.

01 de Outubro de 2025
Foto: Divulgação /Ari Versiani / PAC

A Oxfam Brasil divulgou o relatório Transição Injusta: Resgatando o Futuro Energético do Colonialismo Climático, que mostra como o processo de transição energética mundial mantém padrões de desigualdade histórica. O estudo analisa dados de consumo e investimentos nos últimos 60 anos e conclui que os países mais ricos continuam se beneficiando, enquanto populações do Sul Global seguem enfrentando pobreza energética e ameaças territoriais.

Segundo a pesquisa, o Norte Global consumiu 3.300 petawatts-hora (PWh) além do necessário para suprir as necessidades básicas modernas nesse período. Esse excedente seria suficiente para garantir, por duas décadas, o acesso mínimo de energia a toda a população mundial que ainda vive sem eletricidade.

No Brasil, o Censo 2022 do IBGE apontou que 99,8% dos domicílios têm acesso à energia elétrica, mas cerca de 400 mil pessoas ainda permanecem sem esse direito. Para Viviana Santiago, diretora-executiva da Oxfam Brasil, o modelo atual repete padrões de exclusão. “Ao invés de coletar as lições aprendidas durante a era dos combustíveis fósseis, a transição repete desigualdades e padrões coloniais”, afirmou.

O relatório destaca também a disparidade nos investimentos em energias renováveis. Em 2024, o Norte Global concentrou 46% dos recursos aplicados, enquanto a China deteve 29%. Regiões como América Latina, Sudeste Asiático, Oriente Médio e África receberam entre 2% e 3% cada, mesmo concentrando vastas reservas minerais e, no caso da África Subsaariana, 85% da população mundial sem acesso à eletricidade.

Outro ponto sensível são os territórios de comunidades tradicionais, especialmente indígenas. O estudo mostra que 22,7 milhões de km² de terras reconhecidas estão ameaçadas por atividades industriais ligadas à mineração de minerais críticos. A área equivale à soma de Brasil, Estados Unidos e Índia.

Na avaliação da Oxfam, é urgente adotar o princípio das responsabilidades compartilhadas, mas diferenciadas, responsabilizando países e empresas que historicamente mais poluíram e consumiram energia em excesso. “A transição energética não pode continuar beneficiando apenas os mais ricos, deixando populações inteiras em zonas de sacrifício”, reforça Viviana.

Entre as recomendações apresentadas estão: maior governança energética global, reformas nos sistemas financeiro e de financiamento, garantias de proteção e benefícios para comunidades tradicionais e fortalecimento de instâncias multilaterais de justiça climática.

Para os pesquisadores, uma transição justa só será possível com pressão social e diálogo amplo. “São os desafios do nosso tempo, que exigem responsabilização dos países e empresas e a construção de soluções que contemplem toda a humanidade”, concluiu Viviana Santiago.

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