A discriminação racial no esporte continua a crescer, com números alarmantes de incidentes em estádios e nas arquibancadas, mesmo com o aumento das iniciativas de conscientização.
A luta contra o racismo no futebol, embora ganhe cada vez mais visibilidade, continua sendo um desafio persistente. Recentemente, a cobertura da TV Brasil flagrou um ato de racismo durante o Campeonato Brasileiro Feminino, quando, no jogo entre Sport e Internacional, torcedores do time gaúcho lançaram bananas em direção ao banco de reservas das jogadoras do Sport. Esse episódio é mais um reflexo do aumento das manifestações racistas no futebol brasileiro, o que vem sendo acompanhado pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol.
Marcelo Carvalho, diretor do Observatório, afirmou que, apesar de mais discussões sobre o tema e das campanhas de conscientização, os números de casos de racismo estão crescendo. Desde que o relatório do Observatório começou a ser publicado, em 2014, as estatísticas revelam uma escalada no número de incidentes de discriminação racial.
O crescimento dos casos de racismo no Futebol
De acordo com o mapeamento feito pelo Observatório, em 2014, o ano de início dos relatórios, foram registrados 36 casos de racismo, tanto no Brasil quanto no exterior. Em 2019, esse número subiu para 159, e em 2020, com a pandemia, caiu para 81, mas rapidamente voltou a aumentar nos anos seguintes: 158 em 2021, 233 em 2022 e 250 casos em 2023, ano da última edição do relatório. Esses números preocupantes demonstram a persistência e até o crescimento da violência racial no esporte.
Carvalho alerta que, embora a maior conscientização sobre o tema tenha se espalhado entre jogadores, clubes e torcedores, isso ainda não está sendo refletido nas punições rigorosas contra os racistas. Para ele, a Justiça precisa criar um sistema de punições que realmente intimide os racistas e os leve a refletir sobre as consequências de seus atos. “Mas a gente precisa também entender que não vamos acabar com o racismo pensando só em punição. Precisamos pensar cada vez mais em conscientização e em educação”, afirmou o diretor.
Casos recentes de racismo no Futebol
Um dos casos mais recentes aconteceu no jogo entre Sport e Internacional, no Campeonato Brasileiro Feminino, onde bananas foram lançadas contra o banco de reservas do time de Pernambuco. A reação da arbitragem foi imediata, com uma das árbitras recolhendo as frutas e registrando o ato, que foi transmitido ao vivo pela TV Brasil. Como consequência, o time do Internacional jogará com portões fechados nos próximos três jogos, após decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva.
Além disso, o caso foi registrado pela polícia, com o Sport registrando boletim de ocorrência e a Delegacia da Intolerância, em Porto Alegre, assumindo a investigação criminal. Apesar da punição no campo, Marcelo Carvalho lamenta que, muitas vezes, a conscientização não esteja refletida nos tribunais de justiça desportiva, onde as punições contra os responsáveis pela discriminação são muitas vezes brandas ou ineficazes.
Outro incidente de grande repercussão aconteceu durante a Taça Conmebol Libertadores Sub-20, em 6 de março de 2023, no jogo entre Palmeiras e Cerro Porteño, do Paraguai. Durante a partida, um torcedor do time paraguaio fez gestos racistas imitando um macaco em direção ao jogador brasileiro Luighi.
Em uma entrevista emocionada após o jogo, o jogador questionou a Conmebol sobre a falta de ação contra o agressor, dizendo: “A Conmebol vai fazer o que sobre isso? O que fizeram comigo foi um crime”. No entanto, a punição foi apenas uma multa de US$ 50 mil, e a proibição da presença de torcedores do Cerro Porteño nos jogos seguintes. A falta de uma punição mais severa foi criticada por Carvalho, que afirmou: “A punição deveria ser uma medida imediata para acabarmos com essa sensação de impunidade que se tem, por nada acontecer contra esses indivíduos racistas”.
Subnotificação e a estrutura racista no Futebol
O Observatório também aponta que muitos casos de racismo não são registrados, especialmente em competições amadoras ou nas categorias de base dos clubes. Isso levanta a preocupação de que a situação seja muito mais grave do que os números indicam. "A verdade é que temos uma estrutura extremamente viciada; uma estrutura extremamente racista no futebol, que se dá desde o início de sua prática no Brasil", afirmou Carvalho.
Ele lembrou que, historicamente, o futebol no Brasil sempre foi elitista e classista, e o racismo esteve presente desde seus primórdios. "Basta lembrar que o futebol chegou no Brasil como esporte elitista, classista e racista, ainda que, a partir de determinado momento, pela qualidade dos jogadores negros, esse esporte foi se tornando popular, caindo no gosto das pessoas pobres e negras", explicou Carvalho. Além disso, ele destacou que, mesmo com um maior reconhecimento da importância de políticas compensatórias, como as cotas, a presença de negros como treinadores, dirigentes e gestores no futebol ainda é quase nula.
Regiões e números alarmantes
O mapeamento do Observatório revela que o estado do Rio Grande do Sul lidera o ranking de casos de racismo no futebol, com 89 incidentes registrados entre 2014 e 2023, representando 24,45% do total de 364 casos no Brasil.
São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná completam os cinco estados com maior número de casos de discriminação racial nos estádios. As regiões Sul e Sudeste concentram 68% dos casos, enquanto o Nordeste responde por 16%, e o Centro-Oeste e Norte, por 9% e 6%, respectivamente.
Apesar dos esforços para combater o racismo no futebol, o número crescente de incidentes, a subnotificação e a falta de punições eficazes indicam que o problema está longe de ser resolvido.
Marcelo Carvalho, diretor do Observatório, enfatiza a necessidade de mais ações de conscientização e educação nas categorias de base dos clubes, pois, de acordo com ele, a mudança cultural dentro do futebol só ocorrerá quando todos entenderem que o racismo não é uma piada, mas um crime que deve ser combatido com rigor.
Com informações da Agência Brasil.