Iniciativa realizada no Parque das Tribos reuniu crianças, jovens, mulheres e anciãos em ações de educação, línguas originárias, audiovisual e memória ancestral.
O projeto JOFO NIMAIRAMA desenvolveu, entre março e outubro de 2026, uma série de atividades voltadas à valorização dos conhecimentos ancestrais, ao fortalecimento da identidade indígena e à transmissão de saberes entre gerações na Comunidade Parque das Tribos, em Manaus. Coordenada pela pedagoga Vanda Witoto, a iniciativa teve como base a educação indígena para o bem viver e alcançou aproximadamente 380 pessoas.
Realizadas na Casa de Conhecimento Jofo Nimairama, as ações incluíram oficinas com anciãos, contação de histórias, produção de materiais didáticos bilíngues e multilíngues, atividades de fotografia e audiovisual, além da criação de um minidocumentário. A proposta foi aproximar crianças e jovens de suas raízes culturais e criar formas de manter vivas as memórias e tradições dos povos presentes no território.
Ancestralidade transmitida entre gerações
Um dos principais eixos do projeto foi a aproximação entre os mais velhos e as novas gerações. Seis anciãos da comunidade participaram das oficinas de contação de histórias e compartilharam narrativas sobre a origem dos povos, espíritos da floresta, animais, frutas e alimentos tradicionais. As histórias apresentaram diferentes cosmologias indígenas e permitiram que crianças e jovens conhecessem referências culturais de seus próprios povos pela oralidade.
Segundo Vanda Witoto, esse contato é essencial para fortalecer o sentimento de pertencimento, principalmente entre indígenas que crescem no contexto urbano. A coordenadora destaca que muitos jovens acabam tendo menos contato cotidiano com as línguas e tradições de seus antepassados, tornando ainda mais importante a participação dos anciãos na transmissão desses conhecimentos.
Entre as narrativas trabalhadas estão histórias de origem do povo Witoto, cuja cosmologia relaciona seus antepassados ao centro da Terra e à figura da gente-formiga. As crianças não participaram apenas como ouvintes: também produziram desenhos inspirados nas histórias, que passaram a integrar uma cartilha educativa criada pelo próprio projeto.
Valorização das línguas indígenas
Outro foco do JOFO NIMAIRAMA foi a preservação e valorização das línguas originárias presentes no Parque das Tribos. A cartilha didática foi desenvolvida com palavras, expressões curtas e vocabulários relacionados a animais e plantas em Nheengatu, Witoto, Tukano e Tikuna, respeitando a diversidade de povos que vivem na comunidade.
A iniciativa busca enfrentar a redução do uso das línguas maternas entre as novas gerações, uma realidade comum entre famílias indígenas que vivem em áreas urbanas. O registro da língua Bue Witoto recebeu atenção especial devido ao risco de desaparecimento apontado pela coordenação do projeto. A intenção é que o material produzido possa continuar sendo utilizado tanto pela comunidade quanto em espaços escolares.
Audiovisual e fotografia como memória
O projeto também utilizou fotografia e audiovisual como ferramentas de preservação cultural. As oficinas foram registradas e deram origem a um minidocumentário construído a partir das histórias narradas pelos anciãos, das interações com as crianças e das encenações feitas pelos participantes. Jovens da própria comunidade participaram da captação de imagens e também do processo de edição.
Para Vanda Witoto, o audiovisual amplia as possibilidades de guardar e transmitir esses conhecimentos às futuras gerações. A previsão é que o minidocumentário seja exibido dentro da própria comunidade e também em outras escolas, permitindo que as narrativas circulem para além do território e fortalecendo o protagonismo indígena na produção de seus próprios registros.
A iniciativa foi intermediada pelo Instituto Witoto e recebeu apoio do Fundo Casa Socioambiental, por meio do Edital EIN 359/2025, da chamada Educação para o Bem-Viver — Apoio às Comunidades Indígenas pela Equidade na Educação. Fundado em 2023 por mulheres indígenas do povo Witoto, o instituto atua no fortalecimento das culturas e identidades de povos indígenas que vivem na periferia de Manaus, com projetos nas áreas de educação, cultura, arte, meio ambiente, empreendedorismo e turismo de base comunitária.