“Tem gente que quer que ele seja um santo, mas ele foi um homem, com paixões, defeitos e qualidades”
Esta segunda-feira (21) marca o encerramento do chamado “super feriado” de 2025, que uniu a Semana Santa com o Dia de Tiradentes. Mas além do descanso prolongado, a data convida à reflexão sobre a história de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira.
Tiradentes foi executado em 21 de abril de 1792, enforcado e esquartejado pela Coroa Portuguesa por sua participação na conspiração contra os altos impostos e o domínio colonial. Na época, foi considerado um traidor, mas hoje é reconhecido como herói nacional e patrono cívico do Brasil.
A data só se tornou feriado nacional em 1965, durante o regime militar, por meio da Lei nº 4.897. O texto afirma que a condenação de Tiradentes “não deve manchar sua memória”, exaltando seu papel na luta pela independência e pela república.
Além de mártir, Tiradentes foi um homem comum e multifacetado. Dentista, origem de seu apelido, minerador, comerciante e militar, ele era também um leitor voraz, conhecido por seu espírito inquieto, sua coragem e sua teimosia.
A Inconfidência Mineira, da qual ele participou, foi um movimento organizado por militares e intelectuais que defendiam a independência do Brasil e a criação de uma república. Descoberta a conspiração, Tiradentes foi preso e encarcerado por três anos antes de sua execução.
Após a morte, o corpo dele foi esquartejado e exposto em vias públicas de Vila Rica, atual Ouro Preto, “para servir de exemplo”. Hoje, uma placa no local lembra o episódio trágico da história brasileira e o legado do inconfidente.
Especialistas destacam a complexidade da figura de Tiradentes. “Tem gente que quer que ele seja um santo, mas ele foi um homem, com paixões, defeitos e qualidades”, afirma Luiz Villalta, historiador da UFMG que pesquisa o tema há 40 anos.
Villalta relata que o inconfidente era falante, curioso e politicamente engajado, mas também impulsivo e com uma vida amorosa conturbada. Teve uma filha com Antônia do Espírito Santo, 25 anos mais nova, e há indícios de outros relacionamentos durante suas viagens.
Apesar do discurso libertário, Tiradentes e os inconfidentes não condenaram a escravidão. “Não tinham a menor sensibilidade social”, afirma Villalta, que vê no movimento reflexos de problemas ainda presentes, como falhas no sistema judiciário.
Para celebrar o legado do inconfidente, Minas Gerais promove anualmente a Medalha da Inconfidência, maior honraria do estado. Neste ano, 171 pessoas serão homenageadas em cerimônia realizada em Ouro Preto. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), receberá o Grande Colar, categoria mais alta da premiação.