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Oposição denuncia fraude nas eleições presidenciais do Equador

Reeleição de Daniel Noboa é contestada por Luisa González; observadores internacionais divergem sobre o processo.

14 de Abril de 2025
Foto: Oea_elecciones

A eleição presidencial do Equador, realizada neste domingo (13), terminou sob fortes denúncias de fraude eleitoral por parte da oposição, liderada pela candidata de esquerda Luisa González, do partido Revolução Cidadã. Com mais de 97% das urnas apuradas, o resultado oficial divulgado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) deu a vitória ao atual presidente Daniel Noboa, com 55,6% dos votos, contra 44,3% da adversária. 

Entre os indícios da denúncia de fraude eleitoral, a oposição cita o registro de atas eleitorais sem assinaturas e a diferença entre pesquisas eleitorais e resultados oficiais. Outra desconfiança da oposição foi a mudança de 18 locais de votação sob a alegação de falta de condições climáticas. 

Além disso, a oposição acusa que o Estado de Exceção decretado por Noboa um dia antes da votação interferiu no processo democrático. 

O decreto suspendeu direitos fundamentais, como a inviolabilidade do domicílio e o direito à reunião, além de instituir toque de recolher na capital, Quito, e outras sete províncias. O governo alega que a medida foi necessária para frear o aumento da violência no país. 

Especialistas apontam desconfiança no processo 

Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a diferença expressiva entre o primeiro e o segundo turno levanta questionamentos. 

“Decisões recentes de Noboa, como o decreto de Estado de Exceção, trazem desconfianças em relação ao resultado. Eles avaliam ainda que há fatores políticos que podem justificar o aumento da diferença entre Noboa e González de 20 mil para 1,2 milhão de votos entre primeiro e segundo turno.” 

A professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Carolina Silva Pedroso, destaca a influência da polarização política. 

“Não podemos dizer, com certeza, o que aconteceu, porque temos poucos elementos concretos. Mas esse clima de desconfiança em relação ao resultado se justifica pelas ações autoritárias do governo Noboa. O decreto de Estado de Exceção pode ter tido alguma influência como ferramentas de dissuasão das pessoas a se sentirem livres para votar”, avaliou. 

Ela também pontua que o crescimento de votos para Noboa pode ter relação com o temor do retorno do correísmo – movimento político do ex-presidente Rafael Correa, representado por Luisa González –, e com a “venezuelanização” do país. 

A também professora da Unifesp Regiane Nitch Bressan observa que, até o momento, não houve contestação de resultados por parte dos principais observadores internacionais. 

“Noboa tem a máquina pública a seu favor e, por isso, consegue fazer uma eleição muito mais acirrada. Ele integra uma extrema-direita que está manuseando muito bem as redes sociais. É um tipo de candidato que, não me admira, tenha sido reeleito, ainda que 28% da população esteja abaixo da linha da pobreza, e que o país continue enfrentando graves problemas de criminalidade”, ponderou. 

Observadores internacionais divergem 

A missão eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) contou com 84 observadores em 20 províncias do Equador. O chefe da missão, Heraldo Muñoz, afirmou que a votação ocorria “por ora” com tranquilidade. 

“Após o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) anunciar o resultado, o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, parabenizou Noboa pela vitória e disse que houve coincidência entre os dados apresentados pelo conselho e os coletados pelos observadores da instituição.” 

A União Europeia (UE) ainda não divulgou seu relatório completo, mas o chefe da missão europeia, Gabriel Mato Adrover, informou que a votação ocorreu com normalidade no domingo pela manhã, sem irregularidades registradas. 

O processo eleitoral no Equador é manual e em papel, e todas as urnas são contadas publicamente com registro em ata assinada pelas autoridades presentes e fiscais dos partidos, posteriormente enviada ao CNE. 

Denúncias de fraude ganham força 

Luisa González classificou a eleição como uma das maiores fraudes da história política do país. 

“São 11 pesquisas e investigações estatísticas, em que todas elas, até as do governo, nos deram a vitória, e nenhuma delas nos deu uma diferença como a que estamos vendo no CNE”, alertou em discurso após a revelação do resultado. 

O partido Revolução Cidadã acusa que dezenas de atas sem assinaturas válidas certificaram exclusivamente vitórias de Noboa, violando normas de transparência eleitoral. 

O ex-presidente Rafael Correa também denunciou inconsistências: 

“A menos que tenha ocorrido um cataclismo, é impossível reduzir votos, como aconteceu em Guayas e outras províncias.” 

Em resposta, a presidente do CNE, Diana Atamaint, afirmou que o processo foi transparente e democrático. 

“A democracia é fortalecida quando a voz do povo é respeitada. E hoje essa voz foi ouvida claramente”, afirmou. 

O pedido de recontagem de votos está nas mãos da autoridade eleitoral, que decidirá se há indícios suficientes para uma nova contagem manual parcial ou total. 

“A oposição precisa entregar também provas para que o CNE analise o processo, para ver se esse processo se sustenta ou não. Eles não fariam uma recontagem de 100% das atas, mas daquelas que, em tese, estariam com problemas”, explicou a professora Carolina Silva Pedroso. 

Extrema-direita avança na América Latina 

Para a professora Regiane Bressan, mesmo com as contestações, é improvável que o resultado mude. Ela acredita que a reeleição de Noboa reflete o avanço da extrema-direita no continente. 

“Noboa tem apoio dos Estados Unidos e, por isso, provoca uma cisão na conjuntura latino-americana. Ele reforça essa cisão na medida em que nós temos El Salvador, Equador e Argentina muito mais alinhados com os EUA.” 

Segundo ela, isso enfraquece a tentativa do Brasil de liderar uma articulação regional frente a governos como o de Donald Trump: 

“O Brasil não quer gerar uma oposição declarada, mas quer um contraponto a Trump para buscarmos alternativas diante do tarifaço e demais mazelas do governo dos EUA. A vitória de Noboa dificulta a liderança brasileira ou mesmo um acordo comum para lidarmos com os desafios que estão por vir.” 

A especialista projeta ainda que Noboa deverá endurecer políticas de segurança nos próximos quatro anos, a exemplo do que ocorre em El Salvador: 

“Eleito para um mandato tampão de 18 meses, Noboa agora terá 4 anos para implementar suas políticas no Equador.” 

 

Com informações da Agência Brasil.

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