Felino identificado na Bolívia recebeu o nome científico Leopardus tilcayo e foi diferenciado de espécies semelhantes por análises genéticas.
Uma nova espécie de gato selvagem foi identificada na região de Yungas, na Bolívia, área de transição entre a Cordilheira dos Andes e a Floresta Amazônica. Chamado localmente de Tilcayo, o animal recebeu o nome científico Leopardus tilcayo e é a primeira nova espécie desse grupo descrita pela ciência em mais de 100 anos.
A descoberta foi detalhada em um estudo publicado nesta quinta-feira (17) na revista Current Biology. A pesquisa contou com a participação de cientistas brasileiros e analisou amostras de DNA de 38 gatos selvagens da América do Sul, permitindo identificar diferenças que não poderiam ser percebidas apenas pela aparência dos animais.
O Tilcayo é um felino de pequeno porte, menor que um gato doméstico, com cerca de 46 centímetros de comprimento e aproximadamente 1,5 quilo. A espécie apresenta pelagem marrom-clara e manchas em formato de rosetas irregulares. Até agora, apenas dois indivíduos são conhecidos pela ciência.
Um deles está no Senda Verde Wildlife Sanctuary, na Bolívia. O animal chegou ao local depois de ter sido cuidado por uma família da região, em 2017. Foi no santuário que a pesquisadora Paola Nogales Ascarrunz, líder do estudo, teve o primeiro contato com o felino.
A equipe concluiu que os pequenos gatos selvagens da América do Sul, antes muitas vezes agrupados como Leopardus tigrinus por causa da semelhança física, pertencem a cinco espécies distintas. Além do novo Leopardus tilcayo, foram reconhecidos Leopardus tigrinus, Leopardus guttulus, Leopardus emiliae e Leopardus pardinoides. Também foi identificada uma nova subespécie no Peru, o Leopardus tigrinus antisuyo.
As análises genéticas indicam que o Tilcayo se separou da linhagem principal dos demais felinos há cerca de 1,4 milhão de anos. Os pesquisadores agora utilizam armadilhas fotográficas na floresta para obter novas informações sobre o comportamento da espécie. Até o momento, acredita-se que o animal tenha hábitos noturnos e se alimente de roedores.
Entre os pesquisadores brasileiros envolvidos no estudo estão Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Caroline Charão Sartor, da Universidade de Oxford, e Larissa Rosa de Oliveira, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
À Reuters, Eizirik destacou a importância da descoberta. “mostrar ao mundo que mesmo em um grupo tão reconhecido como os gatos ainda há novas espécies a serem descobertas pode transmitir uma mensagem importante”. Em seguida, acrescentou: “Ainda há muitas espécies não descobertas mundo afora, e elas estão sob risco de desaparecer antes mesmo de as encontrarmos”.
A descoberta também reforça preocupações com a conservação desses felinos. Atualmente, a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza classifica os gatos selvagens da América Latina como vulneráveis e aponta tendência de declínio populacional.