Cinema

Não é sobre ganhar, mas como se ganha

Na coluna dessa semana, falamos sobre vencer e vencer bem nos filmes, na vida e sim, sobre a Argentina.

Por: Emerson Medina
17 de Julho de 2026
Foto: Divulgação

O ano é 1977, a cerimônia do Oscar está em adrenalina pura, na disputa de melhor filme estavam pesos pesados que conquistaram a crítica: Rede de Intrigas, Todos os Homens do Presidente e Táxi Driver. O vencedor foi um campeão de bilheteria que conquistou a alma do público: Rock Um Lutador.

Rock conta a história de Rock Balboa (Sylvester Stalone), um lutador azarão que tem a oportunidade de uma grande luta contra Apolo Doutrinador Creed. Mas ele já conquistou o público com sua certa ingenuidade, as dificuldades de se expressar a determinação em treinar e o coração de ouro do herói  que já faziam dele um campeão. Por isso mesmo, no final do filme Rock perde por pontos (curiosamente quando a Globo exibiu na TV aberta nos anos 1980, a dublagem dá o resultado final como empate). Mas afinal ele não perde, sua trajetória já é de vencedor.

Em muitas obras da sétima arte, vencer não é o mais importante, mas como se vence. Numa das futuras sequências de Rock, Creed (2015), o filho de Apolo (Michael B. Jordan) é quem vai defender o legado do pai no ringue. Ele perde, mas não importa. Ele conseguiu o respeito do esporte e se firmar como boxeador.

Em Escola do Rock, Jack Black faz um músico que finge ser um professor e leva seus alunos de uma instituição tradicional a participar de um concurso de bandas de rock, ensinando que se trata mais de um estilo de vida do que apenas mais um gênero musical. No final eles ficam em segundo lugar, mas são aclamados pelo público.

Em 1986, A Cor do Dinheiro dirigido por Martin Scorcese reuniu Paul Newman e o astro em ascensão Tom Cruise para contar a jornada de uma dupla de jogadores de bilhar que tentam ganhar dinheiro enganando competidores em competições amadoras. Eles brigam, em parte pela impulsividade da personagem de Tom Cruise. Eles se reencontram em uma grande competição de profissionais de bilhar e tudo aponta para o grande confronto final entre o mestre e o pupilo.

Mas em determinado momento Paul Newman tem uma epifania, guarda o taco e desiste de jogar. Fim da história? Não. Tom Cruise o persegue e o desafia. Eles vão pra uma sala reservada, somente os jogadores e suas respectivas namoradas. Paul Newman vai dar a primeira tacada. Close da câmera. Ele abre um sorriso e balbucia: Ei, i´m back (é eu estou de volta). Frame congelado, som de taco acertando a bola. Fade out, tela em black. Sobem os créditos. Não precisamos saber quem vence. Sabemos que Paul Newman obteve a vitória moral. Deu a volta por cima, fez seu grande retorno, tem a experiência e a sabedoria e tem o melhor caráter.

Em Karatê Kid, Daniel San (Ralph Macchio) expõe seus medos de perder o campeonato para os atletas da academia Cobra Kai. Ele ouve do mestre Miyagi (Pat Morita) que ganhar, perder não importa. Fazer boa luta! É o que diz o mestre, dizendo que isso é o que vale para ser respeitado.

A Argentina é a seleção da Copa do Mundo que tem um histórico incrível de superação e determinação de seus atletas, mas que traz agregadas a isso enorme contradições que podem embassar a experiência de um possível tetracampeonato. Manifestações racistas de sua torcida e agressões físicas por parte de seus torcedores em cada partida ajudam a potencializar uma antipatia que se torna mundial, o que causa estranheza aos próprios argentinos.

Em várias postagens os torcedores exaltam que sua seleção não tem negros ou mulçumanos em seu plantel de atletas. Como é possível normalizar esse tipo de comentário e ignorar a contribuição que os próprios negros deram à história do país? Há inclusive uma heroína negra, Maria Remédios Del Valle, estampada na nota de 10 mil pesos argentinos.

Seu principal craque, Messi é um monstro em campo, mas mansinho demais em relação aos extremos da sua torcida, ou dos colegas de partidas. Vini Jr, ao denunciar o racismo que sofre, assim como Mbappé, se agigantam.

Ainda que sobrem na Argentina a raça e a disciplina que faltam ao time brasileiro. Ainda que o os argentinos tenham um dos mais importantes cinemas do mundo e uma incrível produção de histórias em quadrinhos, por conta da soberba e a imaturidade de uma autocrítica, a Argentina corre o risco de ser, ao mesmo tempo, a grande campeã e a grande derrotada desse mundial.

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