Amazonas

Mudanças climáticas aumentam risco de Doença de Chagas em regiões da Amazônia

Estudo alerta para expansão de vetores da doença em cenários climáticos extremos até 2080

10 de Julho de 2025
Foto: Divulgação

As mudanças climáticas estão impactando silenciosamente a saúde pública na Amazônia, favorecendo o surgimento ou o retorno de doenças já controladas. Um dos exemplos mais preocupantes é a Doença de Chagas, que pode voltar a representar um desafio sanitário em função de alterações ambientais provocadas por secas, enchentes e desmatamento.

Um estudo publicado na revista Medical and Veterinary Entomology, conduzido por Leandro Schlemmer Brasil (UFMT) em parceria com instituições como UFPA, Instituto Evandro Chagas e Universidade de Bristol, aponta que o aquecimento global pode facilitar a expansão dos barbeiros, insetos vetores da doença, para novas áreas da floresta, incluindo regiões antes consideradas seguras.

Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a Doença de Chagas é transmitida principalmente por barbeiros e afeta principalmente populações em áreas rurais ou com moradias precárias. Apesar da certificação da OPAS, em 2006, da interrupção da transmissão pelo principal vetor no Brasil (Triatoma infestans), a doença ainda mata milhares de pessoas por ano e é considerada uma das principais enfermidades tropicais negligenciadas.

O estudo analisou mais de 11 mil registros de ocorrência de 55 espécies de barbeiros, utilizando modelagem de nicho ecológico para prever a expansão dos vetores até 2080 sob diferentes cenários climáticos. As projeções indicam risco de aumento da presença dos vetores especialmente em áreas vulneráveis da Amazônia, como o oeste do Pará e o norte do Amazonas.

Mapas gerados pela pesquisa mostram em vermelho as áreas que devem registrar aumento na ocorrência dos insetos, o que acende um alerta para o sistema de saúde. Embora não se estime o número de possíveis infectados, as regiões identificadas podem se tornar focos de transmissão se medidas preventivas não forem adotadas.

A pesquisa também propõe que esse tipo de modelagem seja aplicado a outras doenças tropicais, como dengue, malária e leishmaniose. Com dados robustos, é possível construir mapas de risco semelhantes aos usados para prever enchentes e queimadas, permitindo respostas mais rápidas e eficazes por parte do poder público.

Frente a esse cenário, os autores defendem a criação de políticas públicas integradas, que unam saúde, meio ambiente e adaptação climática. Em áreas com pouca infraestrutura e acesso precário a serviços básicos, o avanço dos barbeiros representa mais uma ameaça à equidade e à justiça social.

Com a COP 30 prevista para ocorrer em Belém, especialistas veem uma oportunidade histórica de inserir a saúde climática no centro das discussões globais. A crise ambiental é também uma crise de saúde, e a ciência, segundo os autores, tem papel decisivo na formulação de soluções baseadas em dados e voltadas à proteção das populações mais vulneráveis.

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