Coronel anuncia dissolução das instituições enquanto país vive onda de protestos.
Os militares de Madagascar assumiram o controle do país, localizado no Oceano Índico, após o presidente Andry Rajoelina deixar o território durante uma grave crise política marcada por protestos massivos e deserções no Exército. O anúncio foi feito nesta terça-feira (14) pelo coronel Michael Randrianirina, em pronunciamento transmitido pela rádio nacional.
"Tomamos o poder", declarou Randrianirina, líder de um motim de soldados que aderiram aos protestos da chamada Geração Z, movimento de jovens que vem exigindo a renúncia do presidente. O coronel afirmou ainda que os militares estavam dissolvendo todas as instituições, com exceção da Câmara Baixa do Parlamento, ou Assembleia Nacional, que minutos antes havia votado o impeachment de Rajoelina.
Em um dia de forte turbulência política, o presidente de 51 anos tentou dissolver a assembleia por decreto. Apesar de ter deixado o país a bordo de um jato militar francês, Rajoelina se recusa a renunciar e desafia as manifestações que tomam as ruas desde o fim de setembro.
A Presidência não respondeu imediatamente às declarações de Randrianirina, mas havia afirmado anteriormente que a sessão da Assembleia Nacional era inconstitucional e que qualquer decisão tomada seria "nula e sem efeito".
Rajoelina justificou sua saída dizendo que se mudou para um “local seguro” após receber ameaças de morte. De acordo com uma autoridade da oposição, uma fonte militar e um diplomata estrangeiro ouvidos pela Reuters, o presidente deixou Madagascar no domingo, em um avião militar francês.
Crescimento das manifestações
Os protestos começaram em 25 de setembro devido à escassez de água e energia e rapidamente se transformaram em uma revolta contra a corrupção, a má governança e a falta de serviços básicos. A insatisfação popular reflete movimentos semelhantes ocorridos em países como Nepal e Marrocos.
Nesta terça-feira, milhares de manifestantes se reuniram na Praça 13 de Maio, no centro de Antananarivo, a capital do país. Em meio a bandeiras de Madagascar e faixas com a caveira da série japonesa One Piece, símbolo adotado pela Geração Z, os participantes cantaram, dançaram e marcharam pedindo a queda de Rajoelina, a quem chamavam de “fantoche francês”, em referência à sua dupla cidadania e ao apoio recebido da antiga potência colonial.
Em determinado momento, Randrianirina subiu ao palco e perguntou: “Vocês estão prontos para aceitar uma tomada militar?”, recebendo aplausos e gritos de apoio da multidão.
O presidente francês, Emmanuel Macron, comentou a crise afirmando que a ordem constitucional deve ser preservada e que, embora compreenda as queixas dos jovens malgaxes, elas “não devem ser exploradas por facções militares”.