Operação da Rocam prendeu seis pessoas, entre elas dois PMs e um policial civil; investigação aponta origem venezuelana do ouro apreendido.
A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) confirmou nesta quinta-feira (30) a maior apreensão de ouro já registrada no estado. Ao todo, 77 barras do metal, somando 72,6 quilos e avaliadas em cerca de R$ 45 milhões, foram encontradas durante uma operação da Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam), em Manaus. Seis pessoas foram presas, incluindo dois policiais militares e um policial civil, todos fora de serviço.
Até então, o recorde de apreensão de ouro no Amazonas era de 47 quilos, registrado em dezembro de 2023 pela Polícia Federal. Em comparação, a nova apreensão supera em mais de 50% o volume anterior. Em nível nacional, a maior apreensão até agora ocorreu em agosto de 2025, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontrou 103 quilos do metal em Boa Vista (RR).
Como começou a operação
A ação ocorreu na noite de quarta-feira (29), após uma denúncia recebida pelo 190 de que uma família estaria sendo feita refém em uma residência na capital. Segundo o comandante-geral da PM, coronel Klinger Paiva, as equipes da Rocam foram mobilizadas de imediato.
"A Polícia Militar recebeu uma denúncia de que em uma residência havia uma família feita de refém. Então, de imediato, a equipe da Rocam chegou no local", relatou o coronel.
Policiais fora de serviço entre os presos
Ao chegarem à casa, os agentes encontraram quatro pessoas rendidas e foram surpreendidos por dois policiais militares e um policial civil, todos fora de serviço. De acordo com o comandante da Rocam, tenente-coronel Renan Carvalho, a situação levantou suspeitas logo no início da abordagem.
"Na residência a gente encontrou a família no chão, na garagem. Fomos recebidos por um policial civil e os dois policiais militares estavam dentro da residência. De imediato a gente entendeu que algo estava errado", contou. “Feita a revista na casa, encontramos barras de ouro na sala. O local onde escondiam o ouro era o tanque do carro que seria usado para transportar o material em Manaus”, completou.
Quem são os suspeitos
Conforme apuração, o policial civil preso é o chefe de investigação do 1º Distrito Integrado de Polícia (DIP), Fellipe Pinto Ferreira. Os policiais militares foram identificados como cabo Gilson Luna de Farias e cabo Antônio Temilson de Souza Aguiar. Um deles estava afastado por problemas de saúde e o outro já havia sido preso em 2024 por porte ilegal de arma.
Além dos três policiais, outros três homens que participavam da negociação foram presos em flagrante. A esposa de um dos suspeitos, dona da casa, foi conduzida à delegacia como testemunha.
O que foi apreendido
Durante a operação, a Rocam apreendeu 77 barras de ouro de origem venezuelana, armas, munições, coletes balísticos, celulares, dinheiro e dois veículos, um deles blindado e outro com fundo falso, que seriam usados no transporte do material. “Um dos indivíduos, dono da residência, era um venezuelano que estava em posse de 77 barras de ouro, o que totalizou 72 quilos. Foi apreendido também o armamento que os policiais estavam utilizando”, informou o comandante Klinger Paiva.
Investigações e medidas disciplinares
O material foi encaminhado à Superintendência da Polícia Federal (PF) em Manaus, responsável por investigar a origem do ouro e a possível participação de outros servidores públicos. O delegado-adjunto da Polícia Civil do Amazonas, Guilherme Torres, afirmou que a corporação já instaurou procedimento interno.
"Será instaurado um inquérito policial. Nós não compactuamos com qualquer tipo de conduta de um servidor, um policial, que não tinha justificativa para estar ali naquele momento, fazendo operação sem ordem de missão. A Polícia Federal vai instaurar o inquérito para verificar a participação de outros possíveis servidores nesse esquema ilegal de venda de ouro", afirmou.
O corregedor-geral do Sistema de Segurança Pública, coronel Franciney Bó, reforçou que a apuração será rigorosa. “A gestão do sistema de segurança pública não está aqui para compactuar com atitudes de servidores com o crime. Tanto que policiais da Rocam, mesmo sabendo que tinham ali colegas de farda, não se limitaram a atender a ocorrência. Fizeram a prisão e foram atrás dos detalhes. Um dos policiais envolvidos já responde a procedimento na Corregedoria, e nós temos o dever de fazer uma apuração isenta e rigorosa. Não vamos compactuar com desvio de conduta de forma alguma”, concluiu.
O caso segue sob investigação da Polícia Federal, que busca identificar a rota do ouro e possíveis conexões do grupo com redes de contrabando que operam na fronteira entre o Brasil e a Venezuela.