Tá quente que só, né maninho? E o que você está fazendo a respeito?
Existe uma figura típica lendária regional amazônica que nos três últimos dias do Festival de Parintins, no final de junho, surge misticamente em favor da defesa do meio ambiente. É o amazonense com consciência ambiental. Nesses três dias de festival, lá em Parintins ou nas redes sociais ele se emociona, canta a plenos pulmões defesa da cultura da terra e da natureza. Ele chora com o indígena, a onça e a saracura. Passados esses três dias, essa figura faz vista grossa às queimadas, ataca direitos dos povos originários e vota em políticos que negam a crise climática.
É isso. Se você passou pelo título e chegou até aqui já sabe que hoje não vou falar de cultura, mas de crise ambiental climática, porque estamos vivendo um calor absurdo fora do normal e estamos fritando, fingindo que não estamos vendo. E antes que alguém diga que sempre foi assim eu preciso dizer que fui menino nos anos 1970/1980 e não me lembro de deixar de brincar na rua por causa do sol ou de passar um dia inteiro respirando fumaça.
Somente na última década, Manaus foi destaque mundial e, muito negativamente, em função da precária qualidade do ar pelas fumaças das queimadas e como um lugar potencialmente danoso ao corpo em função das temperaturas extremas. E foi por causa de discursos de que “sempre foi assim” que deixamos chegar até isso, com o risco de irmos por um caminho sem volta.
Tipping Points, são os chamados pontos de inflexão do clima, são regiões específicas do planeta que estão no limite de uma mudança climática e que poderão ser caminhos sem volta e comprometer a sobrevivência da humanidade. E a Amazônia integra um desses pontos de inflexão com o risco da savanização da floresta, por conta de uma diminuição drástica dos regimes de chuva e elevação da temperatura. Pois é, pode piorar.
Mas o que fazer então? Começar a buscar respostas é o que pode revelar que tipo de civilização nós somos e queremos ser. Por que outras cidades que não estão no meio da floresta, têm muito mais vegetação no perímetro urbano do que Manaus que inaugura parques e condomínios sem árvores.
Plantar árvores que geram sombra já é uma medida que faz muita diferença, especialmente para quem é pedestre numa cidade que tem poucas calçadas e arborização. E se você é um privilegiado que anda somente de carro, no ar condicionado, olhe para o lado. Vai ver crianças e adolescentes a pé carregando suas mochilas porque moram perto da escola, mas precisam encarar o calor pra chegar em casa. E quando chega em casa não têm ar-condicionado, nem luz pra ligar o ventilador.
E quando a cidade é tomada pela fumaça, não tem ar-condicionado que de jeito. Qualquer pai certamente já pensou em uma noite sem dormir respirando fumaça que deveria largar Manaus. E esse é outro ponto de virada que pode acontecer em breve: o esvaziamento da cidade por refugiados do clima. E não é só isso, a capital do Estado, o 5º Produto Interno Bruto do País pode ser inviabilizada economicamente devido o clima, ainda que todos os incentivos fiscais sejam oferecidos. Afinal quem quer vir trabalhar num lugar de clima danoso, sem conseguir respirar direito e com serviços básicos precários? Se ninguém fizer nada é o que pode ocorrer.
Para quem ainda não se convenceu do que fazer. Pesquise sobre o que fazem outras cidades. São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba investem em transporte público eficiente, replantio de áreas degradadas e parques urbanos. Toronto e Paris exigem telhados verdes que são coberturas com vegetação em edifícios. Singapura cria parques com árvores para captar energia solar e refrescar o clima. Medidas simples como deixar quintal com grama e árvore ou cercas vivas contribuem para melhorar a qualidade do ar e ainda valorizam o terreno.
E é bom lembrar que as eleições estão ali, mas são poucos os políticos que efetivamente tem medidas que combatem a crise climática. Então além de votar bem é preciso pressionar para que o meio ambiente não saia da pauta.
Pra não dizer que não falei de cultura já tratei do tema do calor de outra forma, em um quadrinho que escrevi e foi desenhado pelo artista Gusmão Silva na coletânea Manaus 39 Graus, organizada pelo ilustrador Romahs Mascarenhas. Era um material lançado em 2020, com histórias sobre um setembro de 2015 quando Manaus bateu um recorde em temperatura que perdurava há mais de um século. De lá pra cá, só está piorando e estamos fritando como se fosse apenas uma quinta feira.