Decisão unânime reforça nova regra da CBV sobre participação de atletas transgênero em competições femininas; jogadora do Osasco já havia conseguido autorização provisória na Justiça comum.
A Justiça Desportiva decidiu, por unanimidade, nesta sexta-feira (23), contra a elegibilidade da jogadora Tifanny Abreu, de 41 anos, nas competições organizadas pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV). A decisão representa um novo obstáculo para a continuidade da atleta transgênero na Superliga Feminina, competição que disputa desde 2017. O julgamento ocorreu após a entidade adotar novas regras de participação na categoria feminina, o que levou a jogadora e o Osasco a recorrerem à Justiça para garantir sua permanência nas quadras.
A mudança nas regras foi anunciada pela CBV em agosto de 2026, seguindo a política de elegibilidade do Comitê Olímpico Internacional (COI). Pela nova determinação, atletas que desejam disputar competições femininas devem apresentar resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento sexual masculino. Quem não comprovar o atendimento aos critérios estabelecidos fica impedida de participar dos torneios organizados pela confederação.
Tifanny, primeira atleta transgênero a atuar na elite do voleibol brasileiro, foi diretamente afetada pela alteração. Aos 41 anos, a jogadora está em sua sexta temporada pelo Osasco e construiu uma trajetória marcada por participações em competições nacionais e conquistas importantes. A mudança na política de elegibilidade colocou em dúvida sua continuidade na equipe e no esporte profissional.
Antes do julgamento desta sexta-feira, a atleta havia conseguido uma liminar na 44ª Vara Cível do Rio de Janeiro, que autorizou provisoriamente sua participação nas competições da CBV. A decisão permitiu que Tifanny disputasse a Supercopa Feminina, contra o Praia Clube, e a estreia do Osasco na Superliga diante do Brasília. Na Supercopa, a equipe paulista conquistou o título após vencer o Praia Clube por 3 sets a 0.
O julgamento na Justiça Desportiva estava inicialmente previsto para segunda-feira (19), mas foi adiado devido ao volume de documentos apresentados pela defesa da jogadora e ao pedido do Osasco para participar formalmente do processo. Até a análise do caso, a CBV havia informado que cumpriria a autorização provisória concedida pela Justiça comum.
A situação provocou manifestações de apoio à atleta por parte de jogadoras e integrantes da comunidade do voleibol. A capitã da seleção brasileira feminina, Gabi Guimarães, já havia criticado publicamente a mudança de regras e defendido a permanência de Tifanny nas competições.
A defesa da jogadora argumenta que a nova determinação compromete o direito ao exercício profissional de uma atleta que já participava regularmente das competições havia quase uma década. Os advogados também questionam a aplicação das regras sem um período de transição para esportistas que já estavam autorizadas a atuar.
Com o resultado do julgamento, a continuidade de Tifanny na Superliga Feminina volta a enfrentar um impedimento na esfera desportiva. O caso, entretanto, também envolve uma decisão da Justiça comum, e os efeitos jurídicos do novo julgamento sobre a autorização provisória ainda precisam ser esclarecidos.