Saúde

Estudo liga aumento de casos de oropouche a eventos climáticos extremos

Pesquisa publicada na revista The Lancet alerta para risco de surtos em larga escala e indica que a doença pode estar sendo confundida com dengue.

19 de Abril de 2025
Foto: Lauren Bishop / CDC

Eventos climáticos são apontados como os principais responsáveis pela explosão de casos de febre oropouche, segundo estudo publicado na conceituada revista científica The Lancet. A pesquisa analisou dados de seis países da América Latina, incluindo o Brasil, e concluiu que alterações no clima têm relação direta com a disseminação da doença. 

"O risco de infecção provavelmente evoluirá de forma dinâmica nas próximas décadas, com potencial para surtos futuros em grande escala", alertam os pesquisadores. 

No Brasil, a febre oropouche era considerada uma doença endêmica da Região Amazônica, com registros pontuais em outras localidades. No entanto, desde 2023, os casos vêm crescendo rapidamente e se espalhando para novos estados. De 833 infecções confirmadas naquele ano, o número saltou para 13.721 em 2024, com pelo menos quatro mortes. Até o dia 15 de abril deste ano, o Ministério da Saúde confirmou 7.756 casos, e uma morte segue em investigação. 

A febre oropouche é uma arbovirose causada pelo vírus Orthobunyavirus oropoucheense, transmitido pelo mosquito Culicoides paraensis, conhecido popularmente como maruim. O inseto se prolifera em ambientes vegetais, úmidos e quentes. Os sintomas da infecção se assemelham aos da dengue e incluem: 

Dor de cabeça intensa 

Dor muscular 

• Febre 

Doença pode estar subnotificada 

O estudo, de caráter multidisciplinar, analisou mais de 9,4 mil amostras de sangue coletadas em 2021 e 2022, de pessoas saudáveis e febris. A análise foi feita por meio de métodos in vitro, sorológicos, moleculares e genômicos. Além disso, os pesquisadores criaram uma modelagem espacial que combinou esses dados com registros da doença em toda a América Latina. 

A média de detecção de anticorpos IgG, que indicam infecção passada, foi de 6,3%, chegando a mais de 10% em áreas da Amazônia. Amostras positivas foram identificadas em indivíduos de 57% das localidades analisadas. 

Os dados indicam que a febre oropouche pode estar sendo subnotificada. Segundo os pesquisadores, a presença de anticorpos em amostras colhidas durante surtos de dengue pode indicar que muitas pessoas foram diagnosticadas erroneamente. 

“A identificação desses anticorpos em amostras colhidas durante surtos de dengue pode indicar que pessoas com oropouche receberam diagnóstico de dengue, considerando também a semelhança de sintomas entre as doenças.” 

A modelagem espaço-temporal também revelou que variáveis climáticas, como mudanças nos padrões de temperatura e de chuvas, foram responsáveis por 60% da disseminação do vírus. Os pesquisadores destacam o papel de eventos climáticos extremos, como o El Niño, no início do surto em 2023. 

“Mudanças nas condições climáticas podem favorecer o aumento da transmissão do vírus que causa a febre oropouche ao elevar as populações de maruins, favorecer a transmissão das fêmeas de maruins para seus filhotes ou intensificar a replicação viral em mais animais.” 

Regiões mais vulneráveis 

Com base na modelagem, o estudo identificou as regiões com maior risco de transmissão. São elas: áreas costeiras do Espírito Santo ao Rio Grande do Norte, uma faixa que se estende de Minas Gerais ao Mato Grosso e toda a Região Amazônica. 

"Nas regiões com risco estimado elevado de transmissão do OROV [vírus da febre do oropouche], onde ainda não foram reportados casos, o aumento da vigilância é crucial para compreender e responder de forma eficaz aos surtos atuais e futuros", recomendam os pesquisadores. 

A pesquisa também destaca a necessidade de ampliar o acesso a testes diagnósticos específicos para a oropouche. O controle vetorial, como o aplicado no combate ao mosquito Aedes aegypti, também deve ser adaptado para atingir o maruim. Os cientistas defendem ainda o incentivo a novas pesquisas sobre o vírus e o desenvolvimento de uma vacina.

 

>> Estudo publicado na conceituada revista científica The Lancet.

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