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Desinformação sobre autismo no Telegram cresce 150 vezes em seis anos, alertam pesquisadores

Estudo revela que, enquanto teorias conspiratórias aumentam no aplicativo de mensagens, Brasil lidera a propagação de informações falsas sobre o Transtorno do Espectro Autista

06 de Abril de 2025
Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Nos últimos seis anos, a disseminação de desinformação sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas comunidades do Telegram, na América Latina e no Caribe, aumentou mais de 150 vezes, com um crescimento de 635% nos primeiros anos da pandemia de covid-19.  

A pesquisa, realizada pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas e pela Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil), analisou mais de 58 milhões de postagens em 1.659 grupos conspiratórios, envolvendo mais de 5 milhões de usuários. 

De acordo com o estudo, o volume de publicações equivocadas sobre o autismo cresceu de maneira exponencial. Em janeiro de 2019, eram apenas quatro postagens mensais sobre o tema. Esse número saltou para 35 em janeiro de 2020 e atingiu o pico de 611 postagens mensais em janeiro de 2025 — um aumento de 15.000%.  

O coordenador do estudo, Ergon Cugler, observa que a pandemia teve um impacto decisivo nesse fenômeno. “A crise sanitária gerou medo, incerteza e uma demanda intensa por explicações, muitas vezes, em ambientes de baixa confiança institucional”, afirmou Cugler, que é autista e pesquisador no DesinfoPop/FGV. 

Cugler ainda ressaltou que “grupos que antes se restringiam a temas antivacina passaram a incorporar o autismo como nova frente de pânico moral”. De fato, o conteúdo conspiratório sobre o TEA está intimamente ligado a movimentos antivacina e ao negacionismo científico, com teorias como a relação do autismo com radiação de redes 5G, vacinas e até chemtrails (falsa crença sobre rastros químicos deixados por aviões). 

Brasil é líder na desinformação sobre autismo 

O estudo revelou que o Brasil é responsável por quase metade de toda a desinformação sobre o autismo nas comunidades do Telegram na América Latina e Caribe, com 46% do conteúdo conspiratório. Foram registradas 22.007 publicações, alcançando até 1,7 milhão de usuários e somando mais de 13,9 milhões de visualizações. Outros países como Argentina, México, Venezuela e Colômbia também estão entre os maiores produtores e consumidores desse tipo de conteúdo. 

Esses grupos não só compartilham informações falsas sobre as causas do autismo, mas também promovem falsas curas, como o uso de produtos perigosos ou terapias sem comprovação científica, como soluções milagrosas. “Muitas dessas ‘terapias’ são comercializadas pelos próprios autores das postagens, transformando o desespero de famílias em negócio”, alerta Guilherme de Almeida, coautor do estudo e presidente da Autistas Brasil. 

Desinformação prejudica diagnósticos e tratamentos 

A pesquisa mostra que a desinformação sobre o autismo não é apenas uma questão de falsidade, mas também de riscos reais. Além de distorcer a compreensão pública do transtorno, essa onda de desinformação compromete diagnósticos precoces, atrasa o acesso a direitos e favorece tratamentos ineficazes ou até prejudiciais. Almeida adverte que isso resulta em um ciclo perigoso, onde o medo e a culpa são explorados para vender soluções fraudulentas. 

“Ela alimenta um sistema altamente lucrativo. Criou-se uma lógica cultural que naturaliza o autismo como problema a ser corrigido, legitimando intervenções que movimentam universidades, clínicas e algumas grandes ‘corporações da deficiência’”, afirmou Almeida. 

Estrategistas de desinformação no Telegram 

Os pesquisadores destacaram a sofisticada estratégia usada por essas comunidades do Telegram. Elas operam como bolhas de reforço, onde membros se validam mutuamente, e utilizam a linguagem científica para dar credibilidade às suas teorias. A venda de “soluções milagrosas” como dióxido de cloro, terapias alternativas e cursos de ‘desparasitação’ do intestino se tornaram produtos comuns nessas comunidades, reforçando um ciclo de desinformação como negócio. 

Combate à desinformação 

Cugler e Almeida defendem que é necessário um esforço conjunto para combater a desinformação. Cugler propõe que as plataformas de redes sociais, como o Telegram, sejam mais responsáveis e limitem a circulação de conteúdos prejudiciais à saúde pública. Almeida, por sua vez, destaca a importância de reforçar a educação e o pensamento crítico, além de responsabilizar criminalmente aqueles que lucram com a desinformação. 

O Telegram, procurado pela Agência Brasil para se manifestar sobre o estudo, não respondeu até o momento. 

O que é o TEA? 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado por dificuldades na comunicação e interação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos, além de problemas sensoriais e dificuldades de aprendizagem. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estima que uma em cada 160 crianças no mundo tenha TEA, e no Brasil, a Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas calcula que cerca de 5,6 milhões de pessoas foram diagnosticadas com o transtorno. 

A desinformação é uma ameaça real à saúde pública 

Almeida ressalta que a desinformação não é apenas um problema informativo, mas uma ameaça concreta à saúde pública. Ela afeta diretamente as famílias, empurrando-as para tratamentos não comprovados e prejudiciais, e desvia recursos públicos e privados de práticas baseadas em evidências, enfraquecendo políticas públicas sérias. 

A luta contra a desinformação sobre o autismo, portanto, exige não apenas um olhar atento à qualidade da informação, mas também políticas públicas que garantam o acesso a tratamentos eficazes e baseados em ciência para as pessoas com TEA. 

 

Com informações da Agência Brasil.

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