Justiça

Crise do oxigênio em Manaus completa cinco anos e segue sem responsabilização oficial

Colapso em 14 de janeiro de 2021 deixou mais de 60 mortos e marcou a pandemia no Amazonas.

14 de Janeiro de 2026
Foto: Rede Amazônica

A crise do oxigênio que colapsou o sistema de saúde de Manaus completa cinco anos nesta quarta-feira (14), sem que ninguém tenha sido responsabilizado oficialmente pelo episódio. Em 14 de janeiro de 2021, durante a segunda onda da Covid-19, hospitais públicos ficaram sem o insumo essencial para manter pacientes respirando, em um dos momentos mais dramáticos da pandemia no Brasil.

Naquele período, a capital amazonense enfrentou recordes de internações, superlotação e unidades fechando as portas com pacientes do lado de fora. Profissionais de saúde e familiares transportaram cilindros em carros próprios e, diante da falta de estrutura, o Governo do Amazonas precisou transferir pacientes para hospitais de outros estados.

A técnica de enfermagem Cintia Elisa, que atuava no Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio, relatou que foi necessário reduzir drasticamente o fornecimento.

“Eu lembro que no João Lúcio não acabou totalmente, mas teve que reduzir bastante. Se tinha 10 litros de oxigênio para cada um, tinha que diminuir para 2 litros e só para os pacientes que estavam mais graves”, contou. Ela afirmou que o insumo era revezado entre pacientes: “Quando um levantava a mão querendo mais oxigênio, a gente tinha que baixar de outro para todos conseguirem ficar com oxigênio. A gente fazia um balanço de quem precisava mais. Era uma loucura."

Investigações do Ministério Público e da Defensoria Pública apontaram que mais de 60 pessoas morreram em todo o estado em decorrência da falta de oxigênio. Dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas indicam que, em 2021, o estado registrou 232.218 casos de Covid-19, sendo 64.128 somente em janeiro. Até 2 de março daquele ano, Manaus contabilizou 4.430 mortes.

O médico Juan Carlos Villagomez, que atuou na linha de frente no HPS João Lúcio, relatou que presenciou o colapso e recebeu a notícia da morte da irmã no mesmo dia.

“Às 8 horas da manhã eu soube que a minha irmã estava na fila do Hospital Adventista tentando uma vaga para a UTI e não conseguia. Ela já estava muito grave sem ar. Por volta das 9h fui pra UTI do Hospital João Lucio e me deparei com uma cena que parecia hospital de campanha da Segunda Guerra Mundial. A UTI estava completamente lotada, não tinha espaço”, relembrou.

“Por volta das 14h a minha irmã faleceu sem oxigênio e eu vi que não era o único que estava sentindo essa dor da perda, era muita gente”, completou.

O consumo de oxigênio, que normalmente ficava entre 15 e 17 mil metros cúbicos por dia, chegou a 76,5 mil metros cúbicos no pico de 14 de janeiro. A produção das empresas fornecedoras somava 28,2 mil metros cúbicos diários, o que gerou um déficit de 48,3 mil metros cúbicos.

Com o agravamento da crise, unidades relataram falta total de oxigênio e o SPA do Alvorada fechou após atingir a capacidade. Familiares passaram a buscar cilindros em fornecedores privados, enquanto hospitais apelavam por ajuda. Na tentativa de reduzir a pressão na rede, mais de 500 pacientes foram transferidos às pressas para outros estados em aeronaves da Força Aérea Brasileira e transportes civis.

Projeção no centro da cidade de São Paulo, SP, com os dizeres ¨Oxigênio pra Manaus¨, nesta quinta-feira, 14. 

(Foto: ALLISON SALES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)

Alertas foram registrados antes do colapso. Em 11 de janeiro, a White Martins informou que o consumo em Manaus havia aumentado seis vezes por causa do surto. Mesmo assim, as medidas adotadas foram consideradas insuficientes para evitar a falta total. Na data do colapso, o então representante do Ministério da Saúde, coronel Franco Duarte, afirmou:

“Aquele paciente que não está no leito de UTI é o que consome mais, porque ele fica ao lado do regulador de oxigênio. A sensação é a falta de ar, e você abrindo o acesso ao oxigênio, você tem a sensação de bem-estar, mas em contrapartida, aumenta muito essa demanda”.

No campo judicial, houve decisões reconhecendo a relação entre a tragédia e a responsabilidade do poder público. Em dezembro de 2023, famílias receberam indenizações, incluindo um caso de R$ 1,4 milhão. Em abril de 2024, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública do Amazonas entraram com ação pedindo indenização de R$ 4 bilhões contra União, Estado e Prefeitura de Manaus, além de medidas como audiências públicas, memoriais e programas de apoio às famílias.

Em novembro de 2025, foi inaugurada a praça Anjo da Esperança, no cemitério Nossa Senhora Aparecida, na zona Oeste, em homenagem às vítimas da Covid-19 e aos profissionais de saúde. Em 2025, o MPF também acionou a Justiça para obter relatórios da Abin que teriam antecipado a crise.

 

Com informações do G1 Amazonas*

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