Livro defende ambientes de trabalho mais humanos diante do avanço do estresse, da sobrecarga e do esgotamento profissional.
A crise de saúde mental no ambiente de trabalho tem provocado impactos sociais, financeiros e profissionais no Brasil. Em 2025, mais de 546 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social divulgados em janeiro de 2026. O cenário é discutido no livro O poder da compaixão no ambiente de trabalho, lançado pela autora Lisa Polloni.
A obra aborda o crescimento do estresse, da depressão e do burnout entre trabalhadores de diferentes áreas. Com quase 30 anos de experiência na liderança de equipes e na transformação de culturas organizacionais, Lisa defende que o modelo atual de trabalho contribui diretamente para o adoecimento.
“Pressões que levam potencialmente ao estresse, depressão e burnout fazem parte da própria estrutura do trabalho neste século 21”, diz Lisa Polloni.
Segundo a autora, a cobrança antes exercida principalmente pelas empresas e pelas estruturas hierárquicas passou a ser reproduzida pelo próprio profissional. A busca contínua por produtividade, desempenho e resultados afeta empregados fixos, trabalhadores autônomos, freelancers, profissionais liberais e empreendedores.
“Enquanto no sistema capitalista tradicional nos séculos 19 e 20, vivíamos em uma sociedade disciplinar, em que as hierarquias controlavam as ações dos trabalhadores e exigiam deles os resultados esperados, hoje a pressão vem do próprio indivíduo”, explica a autora.
Essa cobrança individual pode provocar frustração, especialmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade. Muitos trabalhadores continuam exercendo suas atividades mesmo quando estão adoecidos, por não terem condições financeiras de interromper a rotina ou buscar acompanhamento especializado.
A desigualdade também interfere no acesso aos tratamentos. Pesquisa nacional da Associação Brasileira de Psiquiatria, divulgada em setembro de 2025, apontou que quase 70% dos brasileiros não sabem que podem procurar atendimento psiquiátrico gratuito pelo Sistema Único de Saúde.
Além da falta de informação, pacientes enfrentam demora para conseguir atendimento. No Distrito Federal, o tempo médio de espera para solicitar uma consulta psiquiátrica pelo SUS chegou a 1.003 dias, equivalente a aproximadamente dois anos e nove meses, conforme dados do Mapa Social do DF acessados em 16 de julho.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 também ampliou o debate sobre o tema. Desde maio, a NR-1 passou a exigir que as empresas incluam riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos. A medida determina a identificação, a avaliação e a prevenção de problemas relacionados ao estresse, ao assédio, à violência e à sobrecarga profissional.
Em junho, no entanto, o Supremo Tribunal Federal suspendeu por 90 dias a aplicação de multas e sanções relacionadas aos riscos psicossociais previstos na norma. Mesmo com a suspensão temporária, a atualização reforça a responsabilidade das organizações na prevenção do adoecimento dos funcionários.
“Nenhuma estrutura organizacional resiste quando ignora o componente humano que a sustenta. Processos, metas e organogramas são fundamentais, mas equipes emocionalmente exauridas sabotam qualquer tentativa de alta performance”, diz Lisa Polloni em artigo publicado no seu blog.
Para a autora, muitos sinais de sofrimento emocional surgem de maneira discreta e podem passar despercebidos pelos gestores. A proposta do livro é estimular empresas a reconhecerem esses sintomas antes que eles resultem em afastamentos, redução da produtividade ou agravamento das condições de saúde.
Dos 546.254 afastamentos registrados em 2025, quase dois terços envolveram mulheres. Os benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social relacionados a esses casos representaram mais de R$ 3,5 bilhões.
O avanço dos transtornos mentais reforça a necessidade de ampliar o acesso aos atendimentos psicológico e psiquiátrico no SUS. O cenário também pressiona empresas e autoridades a adotarem medidas de prevenção, acolhimento e reorganização das relações de trabalho.