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Costa do Marfim e Senegal anunciam retirada de militares franceses

Após anos de influência, países africanos buscam afirmar sua soberania com o fim das presenças militares francesas nos próximos meses

02 de Janeiro de 2025
Foto: Reprodução

Os presidentes da Costa do Marfim e do Senegal anunciaram planos para a retirada das forças militares francesas de seus territórios até 2025, alinhando-se a uma tendência crescente em ex-colônias francesas da África. Ambos os líderes afirmam que as mudanças fazem parte de uma estratégia para fortalecer a soberania nacional e reduzir a dependência da antiga potência colonial. 

No último dia de 2024, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, revelou que o país está determinado a acabar com todas as presenças militares estrangeiras, incluindo as da França. Faye solicitou ao ministro das Forças Armadas que elabore uma nova doutrina de defesa que resulte no fim da presença militar estrangeira no Senegal a partir de 2025. Este é um movimento que reflete a crescente insatisfação com a longa presença militar francesa, que se manteve desde a independência do país, em 1960. 

Simultaneamente, o presidente da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, também anunciou que o país tomará o controle completo da sua segurança nacional. O presidente declarou que o acampamento do 43º batalhão de infantaria de fuzileiros navais, em Port-Bouët, será entregue às Forças Armadas da Costa do Marfim em janeiro de 2025, marcando a primeira fase da retirada das forças francesas. 

A medida coloca a Costa do Marfim na mesma linha de outros países africanos, como Níger, Burkina Faso, Chade e Mali, que já decidiram encerrar a presença militar francesa em seus territórios nos últimos anos. 

O Contexto da Retirada 

Especialistas apontam que a saída das forças militares francesas reflete uma crescente onda de nacionalismo e busca por autonomia nas ex-colônias. O professor de Relações Internacionais da UFRJ, Elídio A. B. Marques, destacou que, após as independências nos anos 1960, muitos países da África francófona permaneceram dependentes da França, que manteve sua influência econômica, política e militar por meio de acordos de cooperação. Essa presença constante gerou um forte sentimento anti-francês em muitas dessas nações. 

O pesquisador Bruno Fabricio Alcebino da Silva, da UFABC, afirmou que a Operação Barkhane, lançada pela França em 2014 para combater o terrorismo no Sahel, foi amplamente criticada. Em vez de reduzir a violência, a operação coincidiu com o aumento dos conflitos armados e crises humanitárias na região, o que alimentou críticas sobre o real interesse da França em manter sua influência na África. 

Desafios e Novos Rumos para a África 

Marques alertou que, apesar da saída das forças francesas, a França e outras grandes potências não deixarão de buscar formas de manter sua presença na África. As pressões internas na França, especialmente da extrema direita, podem complicar a retirada completa, disse o professor. 

Por outro lado, Silva destacou que, apesar de o fim da presença colonial ser um passo importante para a soberania africana, a retirada das potências coloniais não resolverá todos os problemas. Países como China e Rússia, além das antigas potências coloniais, continuam a disputar a exploração de recursos naturais e a influência política no continente, o que pode prejudicar a verdadeira autonomia das nações africanas. 

Contexto Político e Econômico 

Nos últimos anos, golpes militares e movimentos nacionalistas em países como Burkina Faso e Níger intensificaram a pressão para a retirada das forças francesas da região. Em setembro de 2023, os governos de Mali, Burkina Faso e Níger formaram uma aliança de segurança, a Aliança dos Estados do Sahel (AES), para se protegerem mutuamente contra rebeliões ou agressões externas, conforme a Reuters. 

A região continua a lutar contra insurgentes islâmicos vinculados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, enquanto países da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Ecowas) ameaçam usar a força contra o Níger, após um golpe militar em julho de 2023.

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