Depoimento revela despesas com hotéis de alto padrão, restaurantes e festas internacionais; Polícia Federal investiga suspeitas de vantagens indevidas ao senador.
O empresário Leonardo Serrano, proprietário da agência de viagens Signature Luxury Services, afirmou à Polícia Federal (PF) que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, custeou viagens internacionais, hospedagens de luxo e outras despesas do senador Ciro Nogueira (PP-PI). O relato, divulgado nesta sexta-feira (6) pelo jornal O Estado de S. Paulo, faz parte das investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras e pagamento de vantagens indevidas a autoridades. Segundo o empresário, sua agência realizou aproximadamente 200 atendimentos relacionados a Vorcaro, incluindo viagens para familiares, amigos e pessoas próximas ao banqueiro.
Entre os episódios mencionados está um jantar realizado em abril de 2024 no restaurante Gigi, em Paris, na França. De acordo com Serrano, a reserva foi solicitada inicialmente em nome de Daniel Vorcaro, mas depois transferida para Ciro Nogueira. O empresário relatou que o banqueiro determinou que todas as despesas fossem pagas por ele. Vorcaro, segundo o depoimento, não participou do encontro. As informações também aparecem em mensagens analisadas pela Polícia Federal, que identificou orientações para que o senador não precisasse pagar a conta.
Outra viagem investigada ocorreu em maio de 2024, em Nova York, nos Estados Unidos. Documentos analisados pela PF apontam que Vorcaro solicitou reservas no hotel Park Hyatt New York, incluindo uma suíte da categoria Royal, com despesas de aproximadamente US$ 47,7 mil. O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria também aparece entre os convidados. Durante a estadia, o grupo participou de eventos privados e encontros em estabelecimentos de luxo. Uma das festas organizadas na cidade teria custado aproximadamente US$ 1,2 milhão, incluindo despesas com bebidas, charutos, refeições e espaços reservados. Não há indicação de que todo esse valor tenha sido gasto exclusivamente com Ciro.
O depoimento também menciona hospedagens em Lisboa, Portugal, e viagens à estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses. Em Lisboa, Serrano confirmou à polícia que uma hospedagem atribuída a Ciro Nogueira custou aproximadamente R$ 90 mil, valor que teria sido integralmente pago por Vorcaro. O empresário também afirmou ter recebido uma solicitação de reserva relacionada ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), mas declarou não conseguir confirmar se a hospedagem foi efetivamente utilizada. Em Courchevel, os investigadores identificaram despesas com restaurantes, equipamentos de esqui e serviços privados que teriam beneficiado o senador e sua esposa.
Ciro Nogueira é investigado na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes relacionadas ao Banco Master e possíveis benefícios concedidos a agentes políticos. Em 7 de maio, a Polícia Federal realizou buscas na residência do parlamentar, em Brasília. Segundo os investigadores, há indícios de que ele tenha recebido pagamentos periódicos, viagens internacionais e acesso a bens do banqueiro em troca de possível auxílio em projetos de interesse de Vorcaro no Congresso Nacional. Relatórios policiais anteriores apontaram pelo menos R$ 468 mil em benefícios econômicos diretos associados a viagens, hospedagens e refeições, sem incluir os custos de voos particulares. As suspeitas ainda dependem de comprovação judicial.
A defesa de Ciro Nogueira já havia negado irregularidades e repudiado as suspeitas envolvendo sua atuação parlamentar. Procurado pelo Estadão para comentar as novas declarações, o senador não havia respondido até a publicação da reportagem. A defesa de Daniel Vorcaro também foi procurada. O empresário permanece preso desde março, enquanto a Polícia Federal continua analisando documentos, mensagens e depoimentos para esclarecer a origem e a finalidade dos pagamentos. Até o momento, as informações reunidas integram uma investigação e não representam uma condenação definitiva dos envolvidos.