Transamazônica submersa, comércio impactado e população enfrenta dificuldades logísticas e econômicas graves.
O número de municípios em situação de emergência por causa da cheia dos rios no Amazonas subiu para 18, conforme o boletim mais recente da Defesa Civil do Estado, divulgado na terça-feira (13). Mais de 195 mil pessoas já foram afetadas diretamente pelo fenômeno.
A previsão é de que o cenário continue se agravando. De acordo com o Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais, as nove calhas dos rios amazonenses devem permanecer em processo de cheia até, pelo menos, o mês de junho.
Na atualização mais recente, o município de Japurá, banhado pelo rio de mesmo nome — afluente do Solimões —, passou do estado de alerta para a situação de emergência.
Veja os 18 municípios que estão em situação de emergência, segundo a Defesa Civil:
• Humaitá – Rio Madeira
• Apuí – Rio Madeira
• Manicoré – Rio Madeira
• Boca do Acre – Rio Purus
• Guajará – Rio Juruá
• Ipixuna – Rio Juruá
• Novo Aripuanã – Rio Madeira
• Benjamin Constant – Rio Solimões
• Borba – Rio Madeira
• Tonantins – Rio Amazonas
• Itamarati – Rio Juruá
• Eirunepé – Rio Juruá
• Atalaia do Norte – Rio Solimões
• Careiro – Rio Solimões
• Santo Antônio do Içá – Rio Solimões
• Amaturá – Rio Solimões
• Juruá – Rio Solimões
• Japurá – Rio Amazonas
Além disso, 17 municípios estão em estado de atenção, 26 em alerta, e apenas um em situação de normalidade.
Dois fenômenos explicam o aumento no volume dos rios, segundo o meteorologista e pesquisador Leonardo Vergasta:
O Inverno Amazônico, que traz chuvas acima da média para a Região Norte e deve durar até o fim de maio.
O La Niña, que chegou ao fim em abril, mas deixou consequências.
No início de 2025, tivemos a atuação do La Niña, que resfria as águas do Pacífico Equatorial. Isso aumenta a intensidade das chuvas na região. Como coincidiu com nosso período chuvoso, desde fevereiro, toda a bacia amazônica registrou volumes de chuva acima do normal”, explicou o pesquisador.
Entre os reflexos mais críticos está a submersão de 20 quilômetros da rodovia Transamazônica (BR-230). A estrada, que é o único acesso terrestre entre Humaitá, Apuí e o distrito de Santo Antônio do Matupi, encontra-se coberta pelas águas do Rio Madeira, prejudicando o transporte de pessoas, alimentos e mercadorias.
Com o bloqueio, passageiros são obrigados a descer do ônibus e seguir viagem em pequenas embarcações.
A espera chega a até 3 horas e sai lotada, sem segurança e sem colete salva-vidas. Cada passageiro ainda precisa desembolsar R$ 100 por um trecho de uma hora e meia e o caminho é feito no meio da floresta alagada.
A dona de casa Adriana Carneiro relatou as dificuldades enfrentadas no transporte dos filhos:
"R$ 180 reais só pra ir, pra voltar mais R$ 180. Isso se não tiver que pagar bagagem, porque às vezes passa do limite. Aqui não teve, não teve ajuda de ninguém até o momento", desabafou.
O comércio também sofre com os impactos da cheia. Em Apuí e no distrito de Santo Antônio do Matupi, os preços de itens básicos aumentaram consideravelmente, segundo o comerciante Gildásio da Silva Filho:
"Hoje estamos enfrentando problemas. A gasolina aumentou R$ 0,30, R$ 0,40. Para nós, isso é muito. O gás, que custava R$ 120, teve um acréscimo de R$ 25 a R$ 30 por botijão. Não é que estão se aproveitando da situação, é o frete que está caro", afirmou.
Com a estrada intransitável, caminhões e carretas agora param em um porto particular em Humaitá. De lá, seguem até Apuí em balsas contratadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Esse novo trajeto, que antes levava cerca de 12 horas pela BR-230, agora dura, em média, quatro dias, navegando pelos rios Madeira e Aripuanã até a comunidade da Prainha, de onde as cargas seguem por terra.
O município de Humaitá é um dos mais atingidos pela cheia do Rio Madeira, que nesta quarta-feira (14) atingiu a cota de 23,44 metros, aproximando-se da cota histórica de 25,63 metros, registrada em 2014.
Cota máxima registrada (2014): 25,63 m
Cota de alerta: 15,00 m
Na zona rural de Humaitá, plantações estão sendo devastadas e a rotina escolar comprometida. Segundo a Defesa Civil, aproximadamente 16 mil pessoas já foram afetadas somente nesse município.
As autoridades seguem monitorando a situação, com previsão de continuidade das cheias nos próximos meses. A população afetada segue aguardando auxílio e soluções emergenciais para garantir transporte, acesso a serviços básicos e segurança alimentar.