Relatório da ONU revela que mais de 20 milhões de brasileiros passaram a ter condições de pagar por uma alimentação saudável desde 2021, mas desigualdade de renda ainda é desafio
O Brasil permanece fora do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), mas 44,8 milhões de brasileiros ainda não têm condições financeiras de manter uma alimentação saudável. O número representa 21,1% da população e consta no relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2026 (SOFI), divulgado em julho pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e outras agências internacionais. Apesar da melhora nos indicadores, o acesso a alimentos nutritivos continua sendo um dos principais desafios sociais do país.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu seu terceiro mandato, em 2023, com o compromisso de retirar novamente o Brasil do Mapa da Fome. A meta foi alcançada em julho de 2025, quando a ONU confirmou que a proporção de brasileiros em situação de subalimentação havia ficado abaixo de 2,5%, limite utilizado internacionalmente para a classificação.
No entanto, sair do Mapa da Fome não significa que toda a população consiga ter uma alimentação adequada. O indicador considera a disponibilidade mínima de calorias necessárias à sobrevivência, enquanto o acesso a uma dieta saudável envolve condições financeiras para adquirir alimentos variados, como frutas, verduras, cereais, leguminosas e fontes de proteína.
Os dados mostram que houve uma melhora significativa nos últimos anos. Em 2021, aproximadamente 65,3 milhões de brasileiros não conseguiam custear uma alimentação saudável, o equivalente a 31,1% da população. Em 2025, esse número caiu para 44,8 milhões, representando uma redução de 20,5 milhões de pessoas nessa condição.
A redução também aparece nos indicadores de insegurança alimentar grave. Segundo a FAO, a proporção de brasileiros nessa situação caiu de 6,6%, no triênio 2021-2023, para 0,6%, entre 2023 e 2025, menor patamar da série histórica. Ainda assim, aproximadamente 1,2 milhão de pessoas enfrentavam insegurança alimentar grave no período mais recente.
Outro obstáculo é o custo dos alimentos. O relatório estima que uma dieta saudável no Brasil custava, em média, US$ 4,89 por pessoa ao dia em 2025, considerando a paridade do poder de compra. O valor era superior ao registrado em 2024, quando a estimativa foi de US$ 4,69. Esse indicador não corresponde diretamente ao valor em dólares convertido pela cotação comercial.
A dificuldade financeira para adquirir alimentos nutritivos também preocupa especialistas por seus impactos na saúde. Uma alimentação pouco diversificada pode comprometer o desenvolvimento infantil e aumentar os riscos de problemas nutricionais, especialmente entre famílias em situação de vulnerabilidade.
O relatório destaca a importância de políticas públicas de transferência de renda, incentivo à agricultura familiar, compras públicas de alimentos e fortalecimento da segurança alimentar. Essas iniciativas podem contribuir para ampliar o acesso da população a alimentos de qualidade e reduzir as desigualdades.