Saúde

Brasil lança novo plano para combater o câncer de colo do útero com foco em rastreamento e vacinação

Doença é a quarta maior causa de morte entre mulheres e pode ser eliminada em até 20 anos

06 de Dezembro de 2024
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O câncer de colo do útero, atualmente a quarta maior causa de morte entre mulheres no Brasil, pode se tornar uma doença residual em 20 anos. Isso será possível com a implementação de um novo plano nacional que busca avanços no rastreamento, no tratamento e, principalmente, na vacinação contra o HPV. Atualmente, esse tipo de câncer é o terceiro mais prevalente entre as mulheres brasileiras, com cerca de 17 mil novos casos e aproximadamente 7 mil mortes anuais. 

Quase 100% dos casos estão relacionados à infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), um vírus que possui mais de 200 tipos, dos quais os subtipos 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% das ocorrências de câncer de colo do útero. O diagnóstico precoce da doença, no entanto, ainda enfrenta desafios: aproximadamente 65% das mulheres diagnosticadas descobrem o problema em estágio avançado, quando as chances de cura são reduzidas. 

Novo teste molecular no SUS 

Entre as principais novidades do Plano Nacional para a Eliminação do Câncer de Colo de Útero está a introdução de um teste molecular no Sistema Único de Saúde (SUS), que substituirá o exame citopatológico tradicional, conhecido como papanicolau ou preventivo. Esse novo método tem maior sensibilidade para detectar a persistência do vírus HPV, um fator determinante no desenvolvimento de lesões precursoras e do próprio câncer. 

“Esse teste permite identificar se o vírus está presente de forma persistente, o que é essencial para o diagnóstico precoce. O HPV é muito comum, com cerca de 90% da população sendo exposta a ele em algum momento. Na maioria dos casos, o vírus desaparece sozinho, mas, em algumas pessoas, ele persiste, aumentando o risco de doenças graves”, explica Roberto Gil, diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer (Inca). 

Atualmente, os testes estão em fase de validação para a escolha da melhor opção. Segundo modelos da Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso do teste molecular pode reduzir em 46% os casos de câncer de colo de útero e em 51% a mortalidade pela doença, índices superiores aos obtidos pelo papanicolau. O público-alvo desse rastreamento são mulheres, ou pessoas com útero, entre 25 e 64 anos, com prioridade para aquelas que nunca realizaram o exame preventivo. 

Autocoleta: alternativa para ampliar o acesso 

Outra iniciativa destacada no plano é a implementação da autocoleta, em que a própria paciente poderá realizar a coleta do material necessário para o exame, sem a necessidade de uma consulta ginecológica. “Muitas mulheres deixam de fazer o rastreamento por não frequentarem postos de saúde ou por se sentirem desconfortáveis com o exame, especialmente quando realizado por um profissional do sexo masculino. A autocoleta é uma alternativa que pode reduzir essa barreira”, afirma Gil. 

Esse modelo já está em fase de teste em cidades de Pernambuco e São Paulo e será gradualmente expandido a partir do próximo ano, priorizando as regiões Norte e Nordeste, que apresentam as maiores taxas de mortalidade pela doença. 

Desafios no tratamento 

Além do diagnóstico tardio, outro problema enfrentado é a demora para o início do tratamento. Embora a legislação brasileira determine que o tratamento comece em até 60 dias após o diagnóstico, a realidade é bem diferente. Nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, metade das pacientes ultrapassa esse prazo. No Norte, 65% dos casos só recebem tratamento após dois meses. Essa demora está diretamente relacionada às altas taxas de mortalidade na região, que ultrapassam 15%, enquanto a média nacional é de 6%. 

Para alcançar as metas estabelecidas pela OMS, o Brasil precisará ampliar em 56% o número de colposcopias realizadas e em mais de 600% a quantidade de biópsias. “O ideal, após a detecção do vírus, é realizar um exame de colposcopia para verificar a presença de lesões. Caso sejam encontradas lesões precursoras, deve-se fazer a excisão imediatamente. Nos casos já avançados, a paciente deve ser encaminhada para serviços de alta complexidade”, explica Gil. 

Vacinação: peça-chave na prevenção 

A vacinação contra o HPV é essencial para eliminar o câncer de colo de útero, já que interrompe novas infecções. A meta é vacinar 90% do público-alvo, que inclui meninas e meninos de 9 a 14 anos. O SUS também disponibiliza a vacina para pessoas imunodeprimidas, vítimas de violência sexual e usuários de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) com até 45 anos. Além disso, foi lançada uma estratégia para resgatar jovens de até 19 anos que não tenham sido vacinados na idade indicada. 

De acordo com Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o foco em adolescentes de 9 a 14 anos é estratégico: “Esse público ainda não iniciou a vida sexual, o que significa que não foi exposto ao vírus. É o momento ideal para garantir a proteção. Após essa fase, as chances de exposição aumentam, reduzindo a eficácia da vacina.” 

Desde abril, o PNI adotou o esquema vacinal de dose única, recomendado pela OMS, para evitar a necessidade de retorno ao posto de saúde para a segunda dose. Em 2023, mais de 6 milhões de doses foram distribuídas, e a prioridade para 2024 é aumentar a cobertura em municípios com índices baixos, especialmente entre os meninos. 

Desafios e metas da vacinação 

Embora a vacinação contra o HPV esteja disponível no SUS desde 2014, a cobertura vacinal ainda apresenta desafios. Entre as meninas, a média nacional de vacinação é de 81,1%, com estados como Paraná alcançando 96%, mas outros, como Acre, não atingem 43%. Entre os meninos, a situação é mais preocupante, com média nacional de 56,9% e apenas 25% no Norte. 

Nesta sexta-feira (6), o PNI lança uma nova ferramenta de monitoramento das taxas de vacinação, com dados detalhados por faixa etária. Em 2022, a cobertura entre crianças de 9 anos ficou abaixo de 69%, enquanto adolescentes de 13 anos alcançaram 100%. 

Com o novo plano, o Brasil busca alcançar as metas globais e garantir que o câncer de colo de útero deixe de ser um problema de saúde pública no país. 

 

Com informações da Agencia Brasil. 

 

 

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