Economia

Brasil é o país mais vulnerável ao colapso da OMC, aponta novo estudo

Relatório mostra que exportações agrícolas brasileiras sofreriam queda drástica sem regras multilaterais

03 de Agosto de 2025
Foto: Divulgação

O Brasil está entre os países mais ameaçados por um eventual colapso da Organização Mundial do Comércio (OMC), segundo estudo da consultoria Oxford Economics encomendado pela ICC (Câmara de Comércio Internacional). O relatório alerta que o país seria o mais vulnerável entre dez nações em desenvolvimento analisadas, com potencial de perdas significativas especialmente nas exportações de produtos não energéticos, como alimentos e matérias-primas.

Realizado antes da recente onda de tarifas promovidas por Donald Trump, o estudo traça cenários onde a OMC deixaria de atuar como mediadora do comércio internacional. O Brasil, que depende fortemente das regras multilaterais para competir globalmente, sobretudo no setor agrícola, seria duramente afetado. Em um mundo regido por disputas bilaterais, como tem ocorrido com as medidas unilaterais dos Estados Unidos, a economia brasileira estaria em clara desvantagem.

De acordo com o levantamento, quase metade das exportações brasileiras está concentrada em produtos agrícolas, como soja, carne bovina e açúcar. Esses itens são extremamente sensíveis a barreiras comerciais e, sem o respaldo da OMC, poderiam enfrentar tarifas elevadas e exigências sanitárias mais rigorosas, dificultando seu acesso a mercados internacionais.

“Tal projeção decorre de três fragilidades interconectadas: a elevada dependência de commodities agrícolas (49% das exportações não energéticas), a alta proteção já existente para esses produtos e a expectativa de aumento de barreiras tarifárias e não tarifárias”, afirma o relatório. O impacto, segundo a consultoria, seria mais severo no Brasil do que em qualquer outro dos países analisados.

O estudo ainda aponta a limitada inserção do Brasil nas cadeias globais de valor como um agravante. Mesmo com negociações com blocos como União Europeia, Mercosul e BRICS, o país segue distante de uma integração mais profunda. A análise inclui também países como China, Índia, Vietnã, Turquia e África do Sul. Estima-se que, sem a OMC, o comércio de bens entre essas nações caia em média 33%, com impacto maior em países de baixa renda.

Especificamente para o Brasil, o relatório projeta uma queda de 45% nas exportações de bens não energéticos no longo prazo, o impacto mais profundo entre as dez economias avaliadas. A consequência direta seria a redução do PIB entre 3% e 6%, além de queda semelhante nos investimentos estrangeiros diretos, prejudicando o crescimento econômico de forma estruturante.

O tema foi tratado com preocupação pelo governo brasileiro. Na última semana, durante reunião na OMC, o Itamaraty criticou, ainda que de forma indireta, a postura dos EUA e classificou como “ataque sem precedentes” a série de tarifas impostas pelo governo de Donald Trump. Segundo o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, há um risco crescente no uso de tarifas como instrumento de pressão política.

“Estamos testemunhando uma mudança extremamente perigosa em direção ao uso de tarifas como ferramenta para interferência nos assuntos internos de países terceiros”, declarou Gough, em referência às tarifas de 50% impostas ao Brasil, supostamente ligadas à situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Atualmente, a OMC enfrenta um impasse institucional grave. Desde 2019, o órgão de apelação, responsável por resolver disputas entre países, está inoperante, devido ao bloqueio dos EUA na nomeação de novos juízes. O governo americano alega que o sistema prejudica seus interesses, critica decisões envolvendo a China e se recusa a participar do novo Mecanismo Provisório de Apelação, criado por mais de 50 países, incluindo o Brasil.

O estudo encomendado pela ICC reforça que a deterioração do sistema multilateral ameaça a estabilidade do comércio global. Fundada em 1919, a ICC atua como ponte entre empresas, governos e organizações internacionais, e agora alerta que países como o Brasil precisam se preparar para um cenário comercial menos previsível e mais fragmentado.

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