Ciência e Tecnologia

Asteroides "invisíveis" próximos a Vênus podem ameaçar a Terra

Objetos indetectáveis hoje podem colidir com o planeta em milhares de anos.

16 de Julho de 2025
Foto: Valerio Carruba / Google Gemini

Um estudo internacional liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificou uma ameaça espacial pouco conhecida, mas potencialmente grave: asteroides que compartilham a órbita de Vênus e escapam das observações atuais devido à posição no céu.

Embora ainda não tenham sido observados diretamente, esses corpos celestes podem atingir a Terra em escalas de milênios, com impactos capazes de devastar grandes cidades.

“Nosso estudo mostra que há uma população de asteroides potencialmente perigosa que não conseguimos detectar com os telescópios atuais. Esses objetos orbitam o Sol, mas não fazem parte do Cinturão de Asteroides, localizado entre Marte e Júpiter. Em vez disso, estão muito mais próximos, em ressonância com Vênus. Mas são tão difíceis de observar que permanecem invisíveis, mesmo que possam apresentar um risco real de colisão com nosso planeta em um futuro distante”, diz à Agência FAPESP o astrônomo Valerio Carruba, professor da Faculdade de Engenharia da Unesp (Guaratinguetá) e primeiro autor do estudo.

O artigo foi publicado na revista Astronomy & Astrophysics. A equipe utilizou modelagem analítica e simulações numéricas de longo prazo para entender a dinâmica desses asteroides e sua capacidade de se aproximar perigosamente da Terra.

Conhecidos como “Asteroides Coorbitais de Vênus”, eles orbitam o Sol com período semelhante ao do planeta vizinho, em ressonância 1:1. Apesar disso, diferem dos Troianos de Júpiter por apresentarem órbitas muito mais instáveis e excêntricas, alternando de posição a cada ciclo médio de 12 mil anos. Durante essas transições, eles podem se aproximar da órbita da Terra e cruzá-la.

“Durante essas fases de transição, os asteroides podem atingir distâncias extremamente pequenas da órbita terrestre, potencialmente cruzando-a”, alerta Carruba.

O estudo destaca que quanto menos excêntrica for a órbita, mais perigoso é o asteroide, pois objetos com menor excentricidade ficam mais próximos do Sol e, consequentemente, são quase invisíveis para observatórios terrestres. Atualmente, há apenas 20 coorbitais de Vênus catalogados, todos (menos um) com excentricidade acima de 0,38.

“A ausência de objetos com excentricidade menor do que 0,38 é claramente resultado de um viés observacional”, pontua o pesquisador.

Segundo os autores, asteroides com cerca de 300 metros de diâmetro podem estar escondidos nessa população. Caso um deles colida com a Terra, poderia formar uma cratera de até 4,5 quilômetros e liberar energia equivalente a centenas de megatons, o suficiente para destruir uma cidade inteira.

O time analisou a possibilidade de detectar esses objetos com o novo Observatório Vera Rubin (LSST), no Chile, mas as simulações mostram que mesmo os mais brilhantes só seriam visíveis por até duas semanas, em condições específicas, e com longos períodos sem visibilidade.

“Tais asteroides podem ficar meses ou anos invisíveis e aparecer por poucos dias em condições muito específicas. Isso os torna efetivamente indetectáveis com os programas regulares do Vera Rubin”, revela Carruba.

A solução, segundo o estudo, pode estar em telescópios espaciais voltados para regiões próximas ao Sol, como as futuras missões Neo Surveyor (Nasa) e Crown (China). Esses equipamentos seriam capazes de monitorar áreas com baixa elongação solar, ângulo em relação ao Sol, e oferecer uma cobertura mais eficaz e constante.

“A defesa planetária precisa considerar não só o que conseguimos ver, mas também o que ainda não conseguimos”, argumenta o pesquisador.

De onde vêm esses asteroides?

Inicialmente, pensava-se que os asteroides coorbitais poderiam ser restos de um antigo planeta desintegrado, mas hoje acredita-se que, assim como os do Cinturão de Asteroides, sejam fragmentos de planetesimais que não conseguiram se unir para formar planetas devido à gravidade de Júpiter. No caso dos coorbitais de Vênus, esses corpos teriam sido desviados para órbitas internas por interações gravitacionais complexas com Júpiter e Saturno, sendo temporariamente capturados pela órbita de Vênus.

“Essas capturas são efêmeras na escala de tempo astronômica, durando, em média, cerca de 12 mil anos. E os objetos podem eventualmente evoluir para trajetórias próximas da Terra ou ser ejetados do Sistema Solar”, explica Carruba.

A pesquisa foi realizada pelo Grupo de Dinâmica Orbital e Planetologia (GDOP) da Unesp e contou com apoio da FAPESP, por meio de bolsa concedida a Gabriel Antonio Caritá, doutorando no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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