Educação

Aluna perde vaga em Medicina após banca não reconhecer sua autodeclaração parda

Samille Ornelas foi excluída da UFF após vídeo ser rejeitado por comissão

05 de Agosto de 2025
Foto: Arquivo pessoal

A baiana Samille Ornelas, de 31 anos, perdeu a vaga no curso de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF) após não ser reconhecida como parda por um comitê de heteroidentificação. Aprovada pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) na modalidade de cotas, a jovem enfrentou um processo que misturou frustração, perda familiar e questionamentos sobre identidade racial.

Ex-aluna de escola pública, Samille gravou um vídeo, como exigido pela UFF, para validar sua autodeclaração. No entanto, a comissão julgou que ela não apresentava “características fenotípicas” de pessoa parda. A decisão a impediu de realizar a matrícula. Após recorrer à Justiça, ela conseguiu liminar e iniciou as aulas em janeiro de 2025, quase um ano após a aprovação.

“Fiquei desesperada. A única certeza que eu tinha era da minha cor, da minha identidade”, relatou. Samille cursou o primeiro semestre até ser surpreendida pela revogação da liminar. Quando restavam apenas duas provas para concluir o período, sua matrícula foi cancelada e os dados acadêmicos excluídos do sistema da UFF.

Samille ainda apresentou novo vídeo, fotos pessoais e comprovante de graduação anterior em Biomedicina, também conquistada por meio de cotas raciais. A universidade manteve o parecer: sua aparência física não condizia com o perfil fenotípico exigido. “Minha vida foi desfeita por um vídeo de 17 segundos. Ninguém me viu pessoalmente, nem a banca, nem a Justiça”, disse.

Os comitês de heteroidentificação avaliam a aparência e não a ancestralidade. São compostos por até cinco pessoas e têm o objetivo de verificar se o candidato é socialmente lido como negro. Na UFF, o processo é remoto, e a análise é feita exclusivamente por vídeo. A prática é reconhecida legalmente desde 2012 pelo STF e regulamentada por portaria federal.

(Foto: Arquivo pessoal)

Mesmo com laudo antropológico afirmando que ela apresenta traços negroides, como lábios grossos e formato craniano compatível, Samille não teve seu caso revertido. “Era uma tentativa de provar cientificamente a minha identidade, mas não foi suficiente”, afirmou.

A perda da vaga gerou abalos emocionais. “Ando com vergonha na rua, sinto que qualquer pessoa pode me chamar de impostora”, desabafou. A estudante relata episódios de racismo vividos durante a infância e a vida profissional, e afirma que sempre se reconheceu como parda.

Apesar da dor, Samille segue acreditando no sistema de cotas. “Ele é essencial para combater fraudes. Só peço que reconheçam que erraram comigo. São muitos alunos e pouco tempo de avaliação, e isso gera falhas.” A jovem agora aguarda decisão das instâncias superiores e estuda para tentar nova aprovação no Enem.

“Minha avó morreu dizendo que eu também era médica. Eu não vou desistir. Medicina é mais do que um sonho, é o meu propósito”, concluiu. Procurada, a UFF ainda não se manifestou sobre o caso.

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