O ATL 2025 também se articula com a realização da COP30, que ocorrerá em Belém (PA), para inserir a pauta indígena no centro das discussões climáticas
A 21ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) teve início neste domingo (6), em Brasília, reunindo milhares de indígenas de todas as regiões do Brasil em defesa da demarcação de seus territórios. A mobilização segue até 11 de abril, com previsão de receber cerca de 10 mil participantes.
Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o ATL 2025 traz o tema “A resposta somos nós: Em defesa da Constituição e da vida” e conta com protestos, atos políticos e programação cultural. No acampamento, o português se mistura às mais de 270 línguas indígenas faladas no país, reforçando a diversidade dos povos originários.
A indígena Andrea Nukini, de 44 anos, viajou quatro dias e quatro noites de ônibus desde a aldeia do povo Nukini, em Mancio Lima (AC), até a capital. Ela destaca que a ausência de demarcação obriga os povos a permanecerem mobilizados. “Nossa luta nunca acaba, porque a gente nunca tem o território totalmente nosso e demarcado”, afirmou.
Entre as prioridades do ATL está a resistência ao Marco Temporal — tese que condiciona o direito à terra apenas aos povos indígenas que estivessem em seus territórios na promulgação da Constituição de 1988. Mesmo após a tese ser considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso aprovou uma lei que a reinstitui.
O ministro Gilmar Mendes, relator do processo no STF, abriu uma mesa de conciliação para tratar do tema. No entanto, as lideranças indígenas decidiram se retirar do espaço por considerarem que a proposta ameaça seus direitos, especialmente por abrir possibilidade de mineração em terras demarcadas.
Marciely Tupari, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), afirmou que participar da mesa seria validar propostas como a exploração mineral, o que contraria os princípios dos povos indígenas. “Nossos direitos não são negociáveis”, disse.
A líder também alertou sobre os impactos da mineração, como os casos dos povos Yanomami e Munduruku, afetados pela contaminação dos rios e a desnutrição causada pela degradação ambiental em seus territórios. “Os parentes estão sofrendo com mercúrio no corpo, e os peixes estão contaminados”, afirmou.
O ATL 2025 também se articula com a realização da COP30, que ocorrerá em Belém (PA), para inserir a pauta indígena no centro das discussões climáticas. A proposta é construir uma NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) indígena, contrapondo-se à do governo brasileiro, que não abordou os impactos do agronegócio nas mudanças climáticas.