Turismo

Vila soterrada por dunas virou símbolo do turismo e da preservação ambiental no Espírito Santo

Antiga comunidade de Itaúnas foi engolida pela areia após décadas de desmatamento e hoje recebe cerca de 100 mil visitantes por ano, atraídos pelas dunas, praias, patrimônio histórico e tradicional Festival Nacional de Forró.

Por: Portal Amz em Pauta
17 de Julho de 2026
Foto: Reprodução

A antiga Vila de Itaúnas, localizada no município de Conceição da Barra, no Norte do Espírito Santo, tornou-se um dos destinos turísticos mais emblemáticos do país após desaparecer sob o avanço das dunas de areia. O local, que décadas atrás abrigava casas, igreja, escola, padaria, cemitério e centenas de moradores, foi gradualmente soterrado pelo deslocamento natural da areia, intensificado pela retirada da vegetação de restinga. Atualmente, a área integra o Parque Estadual de Itaúnas, uma das principais unidades de conservação capixabas, recebendo aproximadamente 100 mil visitantes por ano.

O soterramento da vila ocorreu de forma lenta ao longo de cerca de quatro décadas. Inicialmente, a areia invadiu quintais e ruas, alcançando posteriormente residências, o cemitério e a Igreja de São Sebastião. No início da década de 1970, os últimos moradores deixaram o povoado e reconstruíram suas vidas na margem sul do Rio Itaúnas, reaproveitando portas, tábuas e outros materiais das antigas construções. Hoje, a nova Vila de Itaúnas possui cerca de dois mil habitantes e consolidou-se como importante destino turístico e cultural do Espírito Santo.

Especialistas apontam que o principal fator responsável pelo avanço das dunas foi a ação humana. De acordo com técnicos do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), o desmatamento da vegetação de restinga comprometeu a estabilidade da areia, permitindo que os ventos transportassem grandes volumes de sedimentos em direção à antiga comunidade. Pesquisadores ressaltam que a retirada constante da vegetação para obtenção de lenha, limpeza de terrenos e realização de atividades diversas reduziu a proteção natural da região, acelerando o processo que culminou no desaparecimento da vila.

Mesmo com as explicações científicas, a história de Itaúnas permanece cercada por lendas transmitidas entre gerações. Moradores antigos preservam narrativas sobre pragas, entidades e fenômenos sobrenaturais associados ao soterramento da vila, histórias que continuam vivas por meio da tradição oral e fazem parte da identidade cultural da comunidade.

Sob as dunas também está preservado um importante patrimônio arqueológico. O Parque Estadual de Itaúnas abriga 23 sítios arqueológicos identificados, dos quais 16 possuem origem indígena, contendo vestígios que remontam a mais de três mil anos. Entre os materiais encontrados estão cerâmicas, instrumentos de pedra e outros artefatos que ajudam pesquisadores a compreender a ocupação humana da região desde períodos pré-históricos até a época colonial. Cinco dos principais sítios arqueológicos estão justamente na área onde funcionava a antiga vila.

Criado em 1991, o Parque Estadual de Itaúnas protege um dos mais importantes conjuntos ambientais do Espírito Santo. A unidade reúne dunas que ultrapassam 30 metros de altura, praias preservadas, manguezais, restingas, lagoas, áreas alagadas e mais de 25 quilômetros de litoral protegido. O espaço também abriga uma rica biodiversidade, com espécies como garças, jacarés, lontras, pacas, jaguatiricas, além de plantas típicas da restinga, como caju e mangaba. Em 1992, a área recebeu reconhecimento internacional da Unesco devido à sua relevância ambiental e histórica.

Além das belezas naturais, Itaúnas consolidou-se como referência nacional da cultura popular brasileira. Conhecida como a Capital do Forró Pé de Serra, a vila preserva manifestações tradicionais influenciadas por povos indígenas, comunidades quilombolas e costumes regionais. Entre os principais eventos está o Festival Nacional de Forró de Itaúnas (Fenfit), que chega neste ano à sua 24ª edição, reunindo shows, concursos de música e dança, oficinas e apresentações culturais entre os dias 18 e 25 de julho, atraindo milhares de visitantes de diversas partes do Brasil.

Os órgãos ambientais continuam monitorando o deslocamento das dunas para evitar novos impactos. Desde 2014, projetos de recuperação ambiental com o plantio de espécies nativas de restinga vêm contribuindo para estabilizar a areia e reduzir seu avanço. Paralelamente, o parque desenvolve ações de educação ambiental e orienta visitantes a preservar o patrimônio natural e arqueológico, reforçando que a história de Itaúnas representa não apenas um importante atrativo turístico, mas também um exemplo dos impactos que a intervenção humana pode causar ao meio ambiente e da importância da conservação para as futuras gerações.

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