Reformulação na mídia pública ocorre sob governo Péter Magyar e amplia ruptura política com antigo regime.
Mensagem exibida pelo canal M1, da emissora estatal da Hungria, com mensagem sobre suspensão do noticiário para reformulação.
A televisão estatal da Hungria suspendeu temporariamente, nesta semana, a transmissão de seus noticiários em meio a uma reformulação editorial anunciada pelo novo governo. A medida ocorre após 16 anos de domínio político de Viktor Orbán e representa uma das ações mais simbólicas da gestão do primeiro-ministro Péter Magyar para romper com estruturas associadas ao antigo regime.
Na terça-feira (7), o principal canal da emissora pública, o M1, passou a exibir uma tela preta com a mensagem: “A mídia de serviço público não pode mentir. Pedimos desculpas por termos feito isso durante tantos anos”. O comunicado marcou a paralisação da programação jornalística e expôs, de forma inédita, uma autocrítica pública sobre o papel da emissora durante os anos de Orbán.
Segundo relatos da imprensa húngara, editores de emissoras estatais de TV e rádio foram demitidos após a chegada de uma nova gestão interina à sede da mídia pública. Magyar apresentou a medida como “o fim das transmissões de propaganda nas plataformas públicas”, reforçando o discurso de combate à influência política herdada do governo anterior.
Desde que assumiu o poder, em 9 de maio, o novo premiê tem adotado medidas para desmontar o que classifica como uma “máfia” de Orbán dentro do Estado húngaro. Entre as iniciativas está a chamada “Operação Fogo Purificador”, que prevê uma reforma constitucional para impedir a repetição de uma concentração de poder semelhante à registrada durante a era Orbán.
O partido Tisza, de Magyar, controla dois terços do Parlamento e aprovou nas últimas semanas um pacote de leis anticorrupção. A legenda também avançou no desmonte do Escritório de Proteção da Soberania, órgão acusado de perseguir críticos do governo anterior.
No plano internacional, a mudança na mídia estatal reforça a tentativa de reaproximação da Hungria com a União Europeia, após anos de tensão entre Bruxelas e o governo Orbán. As reformas podem ser decisivas para destravar 16 bilhões de euros, cerca de R$ 102,4 bilhões, em fundos europeus congelados. O partido de Orbán, porém, acusa Magyar de usar as mudanças para estabelecer um “comando autocrático”, ampliando a disputa política no país.