Medicamento TLD é fabricado no Quênia; OMS destaca avanço para autossuficiência regional.
Moçambique começou a receber as primeiras doses de um antirretroviral de nova geração produzido na África, conforme anunciou a Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta segunda-feira (4). O medicamento, conhecido como TLD (dolutegravir, lamivudina e tenofovir), é uma terapia de primeira linha contra o HIV, recomendada pela própria OMS, e será fornecido pelo laboratório Universal Corporation Ltd (UCL), no Quênia.
A ação é resultado de uma parceria entre países africanos, fabricantes e o Fundo Global, que será responsável pela aquisição dos medicamentos. Em 2023, a UCL tornou-se a primeira farmacêutica africana a receber pré-qualificação da OMS para produzir o TLD.
“A aquisição do tratamento de primeira linha para o HIV fabricado na África pelo Fundo Global para Moçambique é um grande marco para o reforço dos sistemas de cadeia de abastecimento no continente. Isto contribuirá para melhores resultados de saúde para as pessoas que vivem com HIV que necessitam de fornecimento ininterrupto de medicamentos”, afirmou Meg Doherty, diretora da OMS para HIV, hepatites e ISTs.
Apesar do avanço, a OMS ressalta que a produção local não é suficiente. São necessários mecanismos complementares como compromissos de mercado, políticas de compras justas e apoio técnico contínuo, para garantir cadeias de abastecimento sustentáveis.
“O TLD fabricado localmente é um passo importante para esse objetivo, mas são necessárias mais ações”, reforçou a entidade.
A OMS também defende que os fabricantes africanos devem ser priorizados nas cadeias globais de suprimentos e que todos os países devem ter acesso equitativo a tecnologias de saúde com qualidade e eficácia comprovadas.
Cenário em Moçambique
De acordo com o Programa Quinquenal do Governo (PQV) 2025–2029, 43 em cada mil habitantes de Moçambique vivem com HIV/Aids. A meta do governo é reduzir essa taxa para 13 por mil até 2029, com foco especial na juventude.
A OMS lembra que, embora 65% das pessoas com HIV no mundo estejam na África Subsaariana, o acesso ao tratamento ainda depende quase exclusivamente de medicamentos importados, produzidos a milhares de quilômetros de distância.
“A produção local com garantia de qualidade é uma prioridade urgente. Cada fabricante africano que cumpre as normas da OMS aproxima o continente de um sistema de saúde mais autossuficiente”, declarou Rogério Gaspar, diretor da OMS para regulamentação e pré-qualificação.
Testes rápidos
Com o risco de redução no financiamento internacional, a testagem de HIV também enfrenta desafios. Para ampliar o acesso, a empresa nigeriana Codix Bio recebeu da OMS uma licença para fabricar testes rápidos de diagnóstico (TDR), o que deve reforçar os programas de testagem e evitar interrupções nos serviços de saúde.
“O teste de HIV é um serviço essencial, e essa produção regional ajudará a garantir sua continuidade mesmo em cenários de crise”, reforçou a organização.