Com esquerda fragmentada e Evo pregando voto nulo, país vota em 17 de agosto.
A direita boliviana lidera as pesquisas para as eleições presidenciais marcadas para 17 de agosto, cenário inédito desde que o Movimento ao Socialismo (MAS) chegou ao poder em 2006. O avanço ocorre em meio à fragmentação da esquerda e à pregação do voto nulo por Evo Morales, impedido judicialmente de concorrer a um novo mandato.
O megaempresário Samuel Medina, da Alianza Unidad, lidera as intenções de voto, seguido por Jorge “Tuto” Quiroga, da Alianza Libertad y Democracia. Juntos, somam cerca de 47% dos votos, segundo pesquisa do jornal El Deber, publicada no último domingo (3). Já o ex-presidente do Senado Andrónico Rodríguez, ex-aliado de Evo, tem apenas cerca de 6%.
Além de presidente e vice, os bolivianos também elegerão 130 deputados e 36 senadores. Com cerca de 12 milhões de habitantes, a Bolívia faz fronteira com Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Esquerda dividida
O MAS enfrenta seu momento mais frágil em quase duas décadas. Após voltar ao poder em 2020 com Luis Arce, que venceu com 55% dos votos, o partido rachou com o retorno de Evo Morales do exílio. Impedido de concorrer por já ter exercido três mandatos, Evo passou a defender o voto nulo e a atacar antigos aliados, incluindo Arce, enquanto responde a acusações de estupro, que nega.
A crise interna levou Arce a desistir da reeleição e indicar o ex-ministro Eduardo De Castillo, que amarga cerca de 2% nas pesquisas. Outras lideranças que deixaram o MAS, como Eva Copa e Andrónico Rodríguez, também não conseguiram consolidar candidaturas competitivas.
“Na ambição de ser o candidato eterno, Evo Morales implodiu o partido. [...] O MAS é um grande agrupamento de muitas tendências [...] e o Evo implodiu essa frente ampla”, avaliou o professor Clayton Mendonça Cunha Filho, da Universidade Federal do Ceará (UFC), à Agência Brasil.
Segundo ele, o sistema proporcional com lista fechada vincula os votos parlamentares à votação presidencial, o que pode deixar o MAS abaixo da cláusula de barreira de 3%.
“O maior partido da Bolívia nas últimas duas décadas corre o risco de desaparecer”, afirmou o professor.
Direita tradicional assume protagonismo
Medina, que lidera as pesquisas, foi ministro nos anos 1990 e candidato à presidência em 2014, ficando em segundo lugar. Ele iniciou sua trajetória em movimentos de centro-esquerda, mas atualmente é identificado com a centro-direita liberal.
Já Tuto Quiroga, segundo colocado nas pesquisas, tem trajetória conhecida. Foi ministro da Fazenda, vice-presidente em 1997 e assumiu a presidência em 2001, após a renúncia de Hugo Banzer. Em 2019, atuou como porta-voz internacional durante o governo interino de Jeanine Áñez.
Segundo Cunha Filho, nenhum dos dois representa a extrema-direita, mas sim uma direita tradicional, com discursos liberais e foco econômico.
Estado plurinacional à prova
A eleição de agosto será a primeira em que um candidato fora do espectro que construiu o Estado Plurinacional da Bolívia terá chances reais de vitória. A Constituição promulgada em 2009, sob o governo Evo, instituiu um modelo que reconhece a diversidade étnica e cultural do país.
Cunha Filho acredita que, embora a nova gestão possa tentar modificar esse arranjo institucional, a necessidade de alianças deverá preservar o modelo.
“Pode ser uma oportunidade de consolidar esse formato, deixando de vinculá-lo exclusivamente ao MAS”, afirmou.
Se nenhum candidato atingir 50% dos votos mais um, ou 40% com 10 pontos de vantagem, haverá segundo turno em 19 de outubro, o primeiro desde a adoção da atual Constituição.